Rio de Janeiro, 16 de Maio de 2026

Sunitas abandonam constituinte e causam impasse no Iraque

Quarta, 20 de Julho de 2005 às 06:53, por: CdB

Quatro árabes sunitas abandonaram a comissão constituinte iraquiana depois do assassinato de três colegas seus, o que pode retardar a redação da nova Carta.

Os assassinatos de terça-feira representaram um duro golpe para a constituinte, vista como uma perspectiva política para derrotar a insurgência, e a defecção da quarta-feira deve prejudicar ainda mais o seu trabalho. O anteprojeto da Constituição deve estar pronto até agosto.

- O ambiente no Iraque não é apropriado para que ninguém cumpra suas tarefas - disse Salih Al Mutlaq, porta-voz do grupo sunita Diálogo Nacional Iraquiano ao explicar por que seus representantes se desligaram temporariamente da comissão.

Outra fonte da constituinte disse que todos os árabes sunitas - 15 no total - abandonaram a comissão, mas não houve confirmação disso. A comissão convocou uma entrevista coletiva para esta quarta-feira.

Atrair os árabes sunitas, privilegiados no regime de Saddam Hussein, para a constituinte era essencial na estratégia apoiada pelos EUA para convencer essa minoria a desistir dos protestos nas ruas e aderir à política institucional.

Alguns sunitas aceitaram no mês passado participar da constituinte, que se tornou assim o primeiro órgão político nacional a incluir uma representação significativa desse grupo desde a posse do novo governo, formado por xiitas e curdos, em abril.

Nesta quarta-feira, o jornal norte-americano The New York Times disse que uma das propostas constitucionais dá papel importante à lei islâmica, restringindo os direitos das mulheres no que diz respeito a heranças e divórcio, por exemplo.

Mas membros da comissão disseram que há várias propostas circulando e que nenhuma delas foi finalizada.

A questão religiosa é um dos principais debates da constituinte. Muitos iraquianos devotos gostariam de ter o Islã como fonte de direito no país. Outros consideram que a religião deveria ser uma de várias fontes.

Outra questão polêmica são os critérios étnicos e religiosos para a divisão dos poderes nas regiões e dos dividendos do petróleo.

A constituinte trabalha sob pressão da violência que toma conta das ruas. Em três dias, no final de semana, cerca de 150 pessoas morreram em atentados do grupo do jordaniano Abu Musab Al Zarqawi, o "representante" da Al Qaeda no Iraque.

Ainda nesta quarta-feira, líderes do país fizeram três minutos de silêncio para homenagear as vítimas de dois ataques recentes - mais de 20 crianças morreram em um atentado suicida quando recebiam doces de militares norte-americanos, e 98 pessoas foram mortas no sábado por um homem-bomba que se explodiu ao lado de um caminhão de combustível, na zona sul da capital.

Um relatório divulgado nesta terça-feira por uma ONG anglo-americana disse que 25 mil civis, policiais e recrutas do Exército iraquianos foram mortos nos dois primeiros anos da guerra, que começou em março de 2003.

Cerca de um terço dessas pessoas foram vitimadas nas primeiras seis semanas de conflito, em grande parte pelas bombas norte-americanas, de acordo com a entidade Iraq Body Count. Mas grande parte morreu mesmo nas mãos de insurgentes e criminosos comuns desde então.

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