A proposta do presidente venezuelano, Hugo Chávez, de eliminar o Mercosul e a Comunidade Andina de Nações (CAN) para construir a União Sul-americana da Nações foi recebida de diversas formas pelos governantes reunidos na sexta-feira na Cúpula da cidade de Ouro Preto.
Os países fundadores do principal bloco sul-americano - Argentina, Brasil, Paraguai e Uruguai - decidiram aceitar esta semana como membros associados Colômbia, Equador e Venezuela, os três países que junto com Bolívia e Peru conformam a CAN.
No pronunciamento feito na 27ª Cúpula do Mercosul, Chávez criticou o processo de integração latino-americano por ser muito lento.
- Perdeu-se muito tempo e não podemos perder mais - afirmou Chávez ao pedir que sejam eliminados os dois organismos existentes, a CAN e o Mercosul, e criada a União Sul-americana de Nações (Unasur).
A Comunidade Sul-americana, que foi criada há dez dias no Peru, é formada por todos os membros do Mercosul (do qual o Chile também é membro associado) e da CAN, mais Suriname e Guiana.
A proposta de Chávez é exemplo das dúvidas que pairam ante o papel que o Mercosul deve assumir a partir de agora dado que, com as novas incorporações, o bloco tem como membros quase todos os países sul-americanos. Diversas fontes alertaram do risco de criar duplicidades que só levarão a mais burocracia.
Um dos primeiros a chamar a atenção sobre este ponto foi o governo uruguaio que, até o fim, opôs-se à criação da Comunidade Sul-americana, embora finalmente tenha assinado a proposta.
No entanto, consultado pela EFE, o presidente uruguaio, Jorge Batlle, tachou a proposta de Chávez de "quixotesca".
- Talvez por ser (de origem) catalã, sou um pouco pragmático, mas me parece que nós (os sul-americanos) somos às vezes um pouco mais como 'Dom Quixote': fazemos terríveis declarações que, depois são pomposas nas manchetes mas não têm substância - afirmou.
No lado oposto, ficou o presidente boliviano, Carlos Mesa, que disse que concordava com o espírito da idéia:
- Façamos com que a Comunidade Sul-americana de Nações se converta, no menor prazo possível, na única estrutura de integração da América Latina.
Outros governantes evitaram o assunto ou o fizeram de forma ambígua, como o presidente do Peru, Alejandro Toledo, que consultado pela EFE, respondeu que Chávez "fala de convergir a experiência de 30 anos da CAN com 15 anos do Mercosul".
- A CAN e o Mercosul continuarão coexistindo em um regime integrador, embora a Comunidade Sul-americana deva se cuidar para não duplicar os papéis exercidos - afirmou.
O presidente chileno, Ricardo Lagos, não fez referência à polêmica e, por outro lado, pediu que seu país seja aceito como membro pleno do Mercosul, não só como associado, devido ao fato de que o bloco deixou de ser uma simples união aduaneira.
Em seu discurso, Lagos alegou que o bloco realmente nasceu como uma união aduaneira, mas que depois ganhou outras dimensões e mecanismos, o que já não justifica a existência de uma distinção entre membros plenos e associados.
Por sua vez, o presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, anfitrião da Cúpula, não se referiu ao assunto nos dois discursos que fez e se limitou a elogiar o fato de que o bloco foi ampliado.
No entanto, uma vez encerrado o encontro, a ponto de entrar em um automóvel para partir e ao lado de Chávez, o presidente brasileiro afirmou: "a Comunidade Sul-americana já é uma realidade".
Outros foram mais cautelosos, como o presidente da Corporação Andina de Fomento, o boliviano Enrique García, que, em declarações, advertiu que "é preciso andar com cuidado e ordenar o processo".
O presidente da Comissão de Representantes Permanentes do Mercosul, o ex-presidente argentino Eduardo Duhalde, também se referiu ao assunto e convidou os governantes da região a resolvê-lo antes da Cúpula extraordinária de maio de 2005 no Rio d