A Suíça acolheu muitos intelectuais italianos perseguidos por razões políticas. O resgate da passagem de cada um deles pelo país envolve um longo trabalho de pesquisa.
“ Troppo Poco Pazzi, Leonardo Sciascia na livre e laica Suíça”, do professor Renato Martinoni, é um livro que percorre as visitas do escritor siciliano famoso pela sua obra literária e pelas posições pouco ortodoxas sobre as questões nacionais.
“Exploramos todas a vias percorridas por ele desde as relações humanas e intelectuais, além das viagens com as conferências e entrevistas”, explica à swissinfoch, o autor da obra. O grande escritor italiano Leonardo Sciascia encontrou no cantão do Ticino (sul da Suíça), ouvidos atentos para as suas polêmicas afirmações e denúncias sobre a máfia, a política, o terrorismo e o Estado. E 22 anos depois da sua morte, as palavras escritas e ditas em território suíço ainda são de atualidade.
Mesmo sem ter vivido no país, ele era um observador atento: “Eu acho que seja uma condição trágica dividir a cultura, além do idioma, de outros povos sem dividir a história. A Suíça divide a língua e a cultura dos povos alemão, francês e italiano mas não divide a história. E isto, nos melhores suíços que eu conheço, é um drama”, observou o escritor numa entrevista de 1974, vinte e três anos depois de ter ganho o prêmio literário suíço, “Libera Stampa”. Até então, Leonardo Sciascia era um ilustre desconhecido.
A premiação o levou a estreitar laços de amizade e admiração com escritores e críticos da Suíça. E, através da troca de correspondência e entrevistas à mídia suíça, Leonardo Sciascia foi emitindo uma série de opiniões sobre personagens da cultura na Suíça, além de criticar com maior liberdade e distância aspectos éticos, sociais e políticos do país natal. “Os prêmios literários quando são poucos podem ser bons e significantes, mas, como na Itália são 1.350, não significam mais nada”, diria ele em meados dos anos 70, numa entrevista radiofônica em Lugano.
Renato Matinoni, autor do livro sobre Leonardo Sciascia (Daniel Ammann)
Conexões intelectuaisEle também afirmaria...”gosto muito de Graham Greene e Dürrematt, por mais paradoxal que possa parecer, acho esses dois escritores semelhantes. Eles dão um destaque à técnica narrativa do gênero policial. Em Greene tem a presença da graça, em Dürrematt me parece que exista a negação da graça. Para mim eles são dois escritores complementares. Dürrematt (1921-1990) me agrada muito. Sobretudo a obra narrativa, o teatro. Me interessa a técnica de Dürrematt, a sua maneira interessante de narrar. Conheço menos Max Frisch (1911-1991)” afirmaria ele ao jornal de Zurique, Tages-Anzeiger, em 1976.
O autor do livro, Renato Martinoni, identificou em “Justizie”, do escritor suíço, a mesma preocupação de Leonardo Sciascia, na obra “Uma estória simples”, com o aparato burocrático e o conceito de ética. A justificativa de um crime que - sob o perfil humano é compreensível como única forma de restabelecer a própria justiça.
Nas inúmeras visitas que fez à Suíça, quase uma por ano desde a premiação de 1957, Leonardo Sciascia acompanhou o processo de imigração da Sicília rumo aos Estados Unidos, ao norte da Itália e outros países da Europa. Numa carta ao círculo literário de Locarno, ele se lamentava do processo de mimetização do siciliano na sociedade suíça e em outras realidades. “ Isto torna tudo mais doloroso porque não implica apenas uma questão econômica, mas de necessidade de liberdade e de dignidade”, escreveu ele.
O professor Renato Martinoni precisa à swissinfo.ch: “ Sciscia alude ao fato de que os sicilianos tentam se livrar da imagem negativa da máfia, e o fazem num esforço grande de integração no país anfitrião. Ainda que isto não seja, naturalmente, fácil e com o risco da perda da identidade”. A diversidade na Suíça acaba se transformando em riqueza cultural. O autor do livro acrescenta ainda “que muitos sicilianos se sentem suíços e mesmo assim mantém uma relação com a terra de origem”.
E a provocação não terminava ali. Ele acrescentaria“ Posso dizer que antes a Sicília era uma metáfora do mundo. Mas, agora, é o mundo que é uma metáfora da Sicília. Vai chegar o dia em que toda a Itália se transformará na periferia de Palermo”, dizia Leonardo Sciascia.
Do seu privilegiado ponto de vista, Leonardo Sciascia define os habitantes da Suíça de forma curiosa: "A Suíça é uma terra mais pobre do que a Sicília, mas alcançou um nível de bem estar que não sonhamos em ter. A Suíça é muito pouco maluca", diria.
Capa do livro de Renato Martinoni (swissinfo)
Trincheira literáriaLeonardo Sciascia era uma espécie de advogado do diabo da sociedade italiana, enraizado na Sicília. Este papel de crítico o levaria tornar-se “persona non grata” nos salões do poder. Amado e odiado, o siciliano seguia na defesa das suas ideias através de livros como “ A Cada Um o Seu” e “ Il Giorno della Civetta”. Muitos deles foram transformados em filmes de sucesso e exibidos na Suíça. Seus livros foram traduzidos nos quatro idiomas nacionais
Certas palavras de Leonardo Sciascia foram proféticas. Há mais de vinte anos explicava a razão do abandono do seu cavalo de batalha, a luta contra a máfia, ao microfone da RSI, em 23 de maio de 1988, em Lugano.
“Eu me interessei pela máfia porque era um fenômeno siciliano e o governo, oficialmente, negava a existência; poucas pessoas se davam conta do que fosse aquele fenômeno. Hoje, todos sabem o que é máfia, todos lutam contra a máfia, até mesmo aqueles que se interessam pela sua sobrevivência estão disponíveis para chamarem-se de antimafiosos”, disse Leonardo Sciascia.
Guilherme Aquino, swissinfo.ch
Milão