Rio de Janeiro, 27 de Setembro de 2026

Sudaneses criticam resolução sobre genocídio em Darfur

Sexta, 23 de Julho de 2004 às 06:01, por: CdB

Árabes sudaneses criticaram nesta sexta-feira uma resolução do Congresso norte-americano que denuncia um genocídio na região de Darfur. Enquanto isso, os moradores negros dessa região, no oeste do Sudão, perguntam o que os Estados Unidos pretendem fazer agora para ajudá-los a voltar para suas casas.

"Já não basta o Iraque? Querem nos destruir também? A América quer que tudo o que for árabe no Sudão pague o preço. Eles não entendem nada", disse o motorista Ismail Gasmalseed, 34, em Cartum.

O Congresso dos EUA aprovou a resolução na quinta-feira. Os defensores da proposta esperam que a medida ajude a mobilizar a comunidade internacional no sentido de proteger os negros de Darfur da fúria das milícias árabes.

Mas a acusação de genocídio é altamente polêmica e não foi formalmente adotada pelo governo dos EUA, pela ONU, pela maioria das ONGs que atuam na região de Darfur e nem pelos rebeldes negros que lutam contra as milícias árabes.

Essas milícias, conhecidas como Janjaweed, estão expulsando os agricultores nativos de Darfur, ampliando um antigo conflito em torno de pastos e terras aráveis. O conflito já deixou mais de 1 milhão de refugiados.

O analista político sudanês Ibrahim Ahmed acha que não há base legal para dizer que ocorre um genocídio em Darfur. Se fosse assim, argumentou ele, o governo dos EUA já teria adotado o termo.

"Mas é igualmente óbvio que a opinião pública norte-americana pensa que é um genocídio, e portanto fazer o Congresso decidir dessa forma é um expediente político para amaciar à opinião pública enquanto se contornam as legalidades".

Yasir Abdullah, jornalista do norte do Sudão, disse que os EUA não entendem as raízes do conflito de Darfur e o abordam de forma superficial. "Eles são tendenciosos e têm sua própria agenda. As sanções não vão prejudicar o governo, vão prejudicar o povo. Eles ainda não aprenderam isso?"

O governo Bush já apresentou ao Conselho de Segurança da ONU uma proposta de resolução que prevê sanções ao governo sudanês se ele não desarmar a Janjaweed e suspender as restrições de acesso de estrangeiros a Darfur.

Cartum diz estar tentando fazer isso, mas afirma que as medidas levarão algum tempo para serem implementadas. "Não fingimos que a situação voltou ao normal", disse o chanceler Mustafá Osman Ismail à edição de sexta-feira do jornal francês Le Monde.

"Existe um problema real que tem de ser resolvido em nível humanitário, político e de segurança, e pretendemos fazer isso. Mas é preciso compreender que estamos aplicando um plano que funciona em estágios".

Refugiados de Darfur em Cartum ficaram animados com a resolução do Congresso norte-americano, mas expressaram dúvidas sobre o compromisso da comunidade internacional em intervir. "Acho que se eles disseram que vão nos dar segurança é porque vão. Mas por que esperaram tanto?", acrescentou Hawaa, que disse ter sido sequestrada por milicianos.

O chanceler Ismail afirmou que as autoridades sudanesas pretendem enviar 6.000 policiais a Darfur, e que 3.000 deles estão prontos para o trabalho. Mas um porta-voz dos rebeldes negros em Darfur disse que os novos policiais são na verdade militantes da Janjaweed disfarçados, usando uniformes e armas novos.

As milícias árabes lançaram dois ataques em Darfur nesta semana, apesar de o governo anunciar que está reprimindo suas atividades, segundo Abu Bakr Hamid al-Nur, coordenador-geral do Movimento de Justiça e Igualdade, um grupo rebelde dos negros.

Ele disse que as forças policiais e alguns milicianos atacaram posições dos rebeldes na última quarta-feira na região de Orshi, ao norte da El Fasher, capital do Estado de Darfur do Norte.
Dois dias antes, a Janjaweed matou mais de 30 pessoas e sequestrou muitas mulheres e crianças em Kfour, a noroeste da capital regional, segundo ele.

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