Qualquer nova-iorquino que tenha tentado trafegar pelo East Side de Manhattan nos últimos dias já terá topado com a maior filmagem que está acontecendo na cidade hoje em dia: a do thriller da Universal Pictures "The Interpreter".
Quando o trânsito fica engarrafado na FDR Drive, qualquer taxista da cidade imagina que a causa da demora seja a chegada de algum político mundial importante à sede da Organização das Nações Unidas (ONU).
Desde que "The Interpreter" começou a ser realizado, o primeiro filme rodado na sede da ONU, os engarrafamentos não se devem às comitivas dos diplomatas, mas aos fãs interessados em ver de perto seus ídolos Nicole Kidman ou Sean Penn.
De acordo com um de seus produtores, Kevin Misher, "The Interpreter" explora em parte a guerra de palavras travada nos círculos diplomáticos.
E, por acaso, foi justamente essa guerra o tema de um debate que teve lugar esta semana, durante o Festival de Cinema Tribeca.
"Boa parte dos desentendimentos entre nós e o mundo árabe acontecem porque as pessoas não entendem o ponto de vista do outro", disse Neil McFarquhar, diretor da sucursal do Cairo do New York Times e um dos debatedores que discutiu a imagem dos EUA no exterior no Centro Tribeca de Artes Performáticas.
"As palavras realmente significam muito na língua árabe", afirmou McFarquhar, chamando a atenção para a reação suscitada contra o uso da palavra "cruzada" pelo presidente Bush num discurso pós-11 de setembro. "Os EUA enfrentam um problema de vocabulário no mundo árabe."
Embora os políticos tenham sido vistos como os principais culpados pela visão que se tem dos EUA no exterior, os debatedores de Tribeca também colocaram a culpa em Hollywood.
"Sabemos que uma das causas principais do sentimento antiamericano é a onipresença da cultura popular americana", disse o presidente da DDB Worldwide, Keith Reinhard, que integra uma força-tarefa que estuda as causas do antiamericanismo.
"Os adolescentes se sentem especialmente atraído pelo que, segundo alguns, é o pior entre nossa produção de entretenimento. Os jovens estrangeiros estão aprendendo a odiar o país que lhes provê esse entretenimento."
Misher concorda que "o que as pessoas pensam de nós tem importância crucial", especialmente quando se sabe que a receita internacional compõe "60 por cento do mercado". Mas ele também defendeu o cinema americano.
"Não existe um filme de Hollywood, existem 600 filmes por ano", explicou. "Fica difícil definir 'é isto o que Hollywood faz'."
"A mídia poderia exercer um papel mais produtivo, e os empresários e o setor de entretenimento poderiam ter uma participação muito grande na criação de uma convivência pacífica", observou a debatedora Mariamm Shahin, roteirista e produtora freelancer que já trabalhou para programas como "Nightline".
Reinhard destacou a realidade sombria de como as empresas americanas podem ser afetadas pelo "esfriamento do sentimento geral em relação à cultura americana".
"Há sinais alarmantes de sentimento antiamericano, e não apenas no Oriente Médio", disse ele.
"Este é um problema grande para as empresas americanas. Existem dez restaurantes apenas em Hamburgo que se negam a vender cigarros Marlboro ou a aceitar cartões de crédito americanos. Muitos lugares hoje se negam a estocar marcas americanas. Temos clientes que precisam compreender como os Estados Unidos estão sendo percebidos no mundo."