A homologação da reserva indígena Raposa Serra do Sol se tornou um impasse jurídico que se estende há mais de seis anos no país. Nesta segunda-feira (03), a ministra Ellen Gracie, do Supremo Tribunal Federal (STF), decidiu suspender a portaria do Ministério da Justiça que, em 1998, estabeleceu a demarcação contínua da reserva.
No processo formal de reconhecimento de um território indígena, o primeiro passo é a realização de um estudo antropológico, realizado pela Funai, para delimitar a terra. Depois, esse relatório precisa ser aprovado pelo Ministério da Justiça, o que conclui a demarcação. Somente após essa etapa acontece a homologação.
Até a publicação da portaria, suspensa nesta segunda-feira, foram dez anos de negociações com índios, fazendeiros, moradores e o governo do estado para que a área fosse considerada efetivamente território indígena.
As discussões começaram em 1977, com sucessivos grupos de trabalho monitorados pela Fundação Nacional do Índio (Funai) responsáveis por esgotar as negociações para a demarcação das terras. Em 1992, foram criados grupos interministeriais para discutir o caso, e somente em 1993 foi publicado no Diário Oficial da União um estudo com o atestado de viabilidade técnica-administrativa para a criação da reserva.
Em 1996, os ocupantes da área fizeram a defesa pública dos interesses contrários e favoráveis à criação da reserva indígena, e somente em 1998 a portaria determinando a demarcação das terras foi publicada. Um ano depois, os fazendeiros que ocupavam as terras já começavam a deixar a reserva. A maioria foi indenizada pela Funai, e alguns agricultores deixaram as terras após negociações com o Conselho Indígena de Roraima (CIR).
Segundo o antropólogo Paulo Santilli, da Universidade do Estado de São Paulo (Unesp), dos 207 fazendeiros que ocupavam as áreas da reserva em 1999, apenas 67 ainda permaneciam na região em 2003. A demora do governo federal em homologar definitivamente a reserva, segundo o antropólogo, provocou o retorno de muitos agricultores e fazendeiros para a região. "O poder judiciário pensa que o tempo dos índios é eterno", criticou.
Depois da portaria de 1998, uma ação popular aprovada pela Justiça Federal de Roraima conseguiu anular a demarcação da reserva. Em julho de 2004, o STF derrubou a ação popular e a demarcação voltou a vigorar. Com a nova decisão da ministra Ellen Gracie, que ainda precisa ser aprovada pelo plenário do STF, as terras se tornariam mais uma vez propriedade do governo do estado de Roraima. A decisão de Ellen Gracie foi tomada com base em ação cautelar ajuizada no STF pelo senador Mozarildo Cavalcanti (PPS-RR), que é contrário à homologação contínua da reserva.
Na avaliação da procuradora da República Débora Duprat, o processo de demarcação das terras já foi concluído em 1998 e não existe questionamento jurídico que justifique o retorno das discussões. "A homologação é só o ato de conferência dos limites (das terras) que já tinham sido estabelecidos na demarcação. Não é o momento de se definir mais limites da área", criticou a procuradora durante recente seminário realizado na Universidade de Brasília.
Segundo Débora Duprat, que coordena a 6ª Câmara do Ministério Público Federal, responsável pelas causas que envolvem as comunidades indígenas, o direito às terras não pode ser questionado aos índios. Na opinião da procuradora, uma pequena parcela da elite do estado está conseguindo reverter o foco das discussões. "O direito à identidade é de fluição imediata. Não se pode protelar ou ficar ao sabor os interesses da vez", disse.
STF suspende demarcação contínua da reserva Raposa Serra do Sol
Terça, 04 de Janeiro de 2005 às 17:42, por: CdB