Em entrevista ao jornal carioca Montbläat, editado pelo jornalista Fritz Utzeri, com circulação neste fim de semana, o economista gaúcho João Pedro Stédile, um dos principais líderes do Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST), aponta falhas na condução da política agrária do governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e critica a "pobreza extrema e a desigualdade social" observada no campo.
"A sociedade brasileira enfrenta dois problemas fundamentais no meio rural: a pobreza extrema e a desigualdade social, entre uma minoria (1%) e milhões de brasileiros. A raiz dessas questões é a concentração da propriedade da terra, que faz com que apenas um por cento dos proprietários controle quase a metade de todas as terras do país, que deveriam servir como bem da natureza para resolver os problemas das pessoas. Devido a essa concentração, existem ainda no Brasil nada menos do que 4,5 milhões de famílias de trabalhadores sem terra. O que faz o MST? O trabalho do MST é conscientizar, organizar essas famílias para que possam lutar, por seus direitos. Que direitos? A terra é um bem da natureza que deveria resolver o problema do povo e não agravá-lo. Está na Constituição, Carta Maior do Brasil, que o Estado deve desapropriar todas as grandes propriedades acima de mil hectares que sejam improdutivas, ou seja, que estão produzindo abaixo do seu potencial, ou seja, grandes parcelas de terra que não cumpram sua função social, que executem ações perdulárias. Também está na Constituição que terras em que estejam sendo desrespeitadas as leis trabalhistas ou ambientais devem ser igualmente desapropriadas. Por tanto, nosso movimento é um movimento republicano. Garantir que todos os brasileiros que vivem no meio rural tenham direitos garantidos pela sociedade.
Ainda segundo Stédile afirma ao Montbläat, "a lei estabelece que o governo tem que fazer um Plano nacional de reforma agrária, para estabelecer metas, recursos, etc. Nós pressionamos o governo Lula para fazer o Plano":
- Levou um ano para aprontar. E vimos que havia disputa dentro do governo. O MDA queria um plano para um milhão de famílias. A área econômica para apenas 80 mil famílias em quatro anos. E aí o Presidente ficou no meio: bateu o martelo para assentar 430 mil em 4 anos. Nós topamos. Foi passando o tempo e nada. Até agora foram assentadas ao redor de 117 mil famílias, em quase três anos.. Por tanto falta muito. Aí fizemos a marcha nacional em maio de 2005. O governo assinou conosco sete compromissos, resumidamente: assentar as 430 mil, priorizar a solução para as 140 mil famílias que estão ACAMPADAS, e portanto passam todo tipo de dificuldades. Baixar portaria mudando os índices que medem uma grande propriedade produtiva, pois são usados ainda dados de 1975. Reformar o Incra, contratar funcionários para reforma agrária, e garantir cestas básicas mensais. Pouco ou nada disso foi feito. Por isso que voltamos a nos mobilizar agora no mês passado. Mas infelizmente a imprensa procurou esconder - afirmou.
O jornal questionou, ainda, que o "último relatório da Comissão pastoral da Terra mostra que a violência no campo continua elevava no atual governo e recentemente o Cel. Pantoja, responsável pelo massacre de Eldorado dos Carajás, foi solto, podendo ficar em liberdade até a última instância (o que pode significar anos)". E perguntou:
- A impunidade continua?
Segundo Stédile, "existe no Brasil uma violência social estrutural no meio rural brasileiro. Ela é fruto da pobreza e da desigualdade. Há uma violência social, que representa falta de trabalho, comida, pobreza. Existe violência maior do que quase 60% dos adultos do meio rural nordestino não conhecerem as letras? E existe uma violência física, de prisões, torturas e até assassinatos, praticados pela prepotência e poder econômico dos fazendeiros,