Dia de festa é sempre igual: bolo, vela, salgadinhos e balões de ar para enfeitar o lugar. No Hospital municipal Souza Aguiar, o burburinho nesta quarta-feira é para comemorar o seu primeiro centenário. A festa é dos 2.100 funcionários que trabalham na Praça da República, no Centro do Rio, mas o presente quem ganha é a população: também nesta quarta está sendo inaugurada uma nova emergência no hospital.
Junto ao novo setor, a aparelhagem de ponta disputa holofotes com a exposição “100 anos, uma vida salvando vidas”, uma mostra com os primeiros equipamentos utilizados, quando o hospital era apenas um Posto Central de Atendimento e funcionava na Rua Camerino, na Zona Portuária da cidade.
Um quadro no corredor central exibe alguns dos objetos engolidos por crianças. Moedas ganham disparado na preferência dos pequenos por corpos estranhos, mas há também alfinetes, brincos, pregos, botões, cruzes e até um escudo do Fluminense, um aparelho ortodôntico e um caroço de manga, este o campeão em tamanho. Todos os pacientes sobreviveram, segundo o chefe do serviço de otorrino, Walter Sedlacek.
Hospital já passou por crises
Apesar dos vários motivos para se comemorar, o hospital já passou por várias situações difíceis. Um dos médicos da emergência, o cirugião-geral José Padilha, de 42 anos recorda que entre as crises no Souza Aguiar, uma das piores aconteceu entre 1993 e 1994, quando o atendimento na emergência ficou praticamente fechado por falta de médico.
— Tivemos que fazer uma triagem e só eram atendidos os casos realmente prioritários. Isso é comum em hospital público onde os salários normalmente são ruins e há uma diferença muito grande entre o valor pago no município e no Estado — contou Padilha.
O secretário municipal de Saúde Jacob Kligerman fala que o Souza Aguiar ficou muito tempo sem reforma.
— Se você olhar lá fora na fachada, verá que hoje somos um canteiro de obras. Nossa previsão orçamentária inclui obras até 2008. O grande problema no Souza Aguiar são os recursos humanos já que temos cerca de 2.500 funcionários municipais deslocados para hospitais federais — disse.
A pior crise, segundo o secretário, que assumiu a pasta há 3 anos e meio, foi em 2004 quando faltou insumos no hospital.
— O que o governo federal retornava em termos de custo era baseado na tabela do SUS. O custo dos hospitais municipais era nove vezes esse valor. A diferença tinha que ser patrocinada pela prefeitura —.
O secretário lembra ainda uma outra batalha que precisa ser combatida: a redução das taxas de mortalidade e infecção, normalmente altas em hospitais públicos como ele mesmo afirmou.
Investimento de R$ 28 milhões
Depois de dois anos de obras e um investimento que chega a R$ 28 milhões, a nova emergência já funciona a todo vapor. O investimento inclui capacitação de funcionários e compra de novos equipamentos para melhor atender à população. Há novos respiradores, eletrocardiógrafos, aspiradores, desfibriladores cardíacos, carros de anestesia e a promessa de funcionamento de um moderno tomógrafo até o fim do ano.
No corre-corre da inauguração, os assentos no ambulatório já estão tomados. Homens, mulheres e crianças aguardam, pacientemente, a sua vez na fila. A prioridade é da emergência, que atende os casos de risco, como baleados e esfaqueados.
Tímido, o pequeno Caio Henrique Carvalho, de 7 anos, morador de Austin, na Baixada Fluminense, estreou a nova emergência. Levado pela mãe, Caio chegou com o braço inchado, depois de uma partida de futebol na terça-feira. Na emergência, ele é logo encaminhado para o setor de gesso. A mãe não se importa de vir de tão longe e encarar uma viagem de uma hora e meia, mesmo sabendo que há outras unidades mais próximas de casa.
— À noite, ele começou a sentir dor. Mas não quis levá-lo no Hospital da Posse.