Uma sonda da Nasa se chocou com um cometa na madrugada desta segunda-feira, provocando uma brilhante colisão que representou o auge de uma arriscada missão destinada a descobrir os segredos da formação da vida na Terra.
- Nós o atingimos exatamente onde queríamos - disse Don Yeomans, cientista do Laboratório de Propulsão a Jato da Nasa.
O espetacular choque a 134 milhões de quilômetros da Terra liberou um jato de material abaixo da superfície do cometa. Esse material foi formado há bilhões de anos, durante a criação do Sstema Solar. É a primeira vez que uma sonda entra em contato com o núcleo de um cometa.
- Acho que agora temos uma compreensão completamente diferente do nosso Sistema Solar", disse Charles Elachi, diretor do laboratório.
- Seu sucesso excedeu às nossas expectativas - disse ainda.
A sonda, do tamanho de uma lavadora de roupas, fez três manobras finais em duas horas para atingir o alvo. Ele bateu no ponto mais brilhante do cometa Tempel 1 na exata hora programada, 2h52 (horário de Brasília), tirando fotos de sua rochosa superfície até 3,7 segundos antes do choque.
A sonda se desintegrou com a colisão, que ocorreu a 37.100 quilômetros por hora -- velocidade que bastaria para ir de Nova York a Los Angeles em seis minutos.
Uma imagem da colisão, feita pela nave-mãe Deep Impact, mostrou uma erupção brilhante saindo da parte de baixo do cometa, que tem a forma de um abacate. A sonda havia sido liberada pela Deep Impact cerca de 24 horas antes.
- O impacto foi maior do que eu esperava, e maior do que a maioria de nós esperava - disse Yeomans.
- Temos todos os dados que poderíamos pedir, e a equipe científica está em êxtase.
Os técnicos presentes da sala de controle da missão, que custou 333 milhões de dólares, gritaram, aplaudiram e se abraçaram quando chegou a confirmação da colisão.
Mas, segundo Mike A'Hearn, cientista-chefe da missão, levará meses para que todos os dados sejam analisados. Três horas após o impacto, apenas 10% dos dados haviam chegado à Terra.
- Basicamente estamos começando o nosso trabalho agora - disse ele a jornalistas durante a madrugada.
-Espero um manancial de dados que me leve à aposentadoria.
Os cometas são feitos de gás, poeira e gelo das regiões mais remotas do Sistema Solar. Eles às vezes têm surtos de atividades, quando sua superfície racha e libera o material que cria caudas de poeira. Os cientistas acham que o choque de um ou mais cometas introduziu a água na Terra.
Os especialistas discordam sobre a densidade que o núcleo dos cometas pode ter, mas o tamanho da colisão de segunda-feira parece descartar uma composição mais porosa, que amorteceria o impacto da sonda, segundo A'Hearn.
As imagens feitas pelo impactador mostram o núcleo do cometa com um detalhamento inédito. Várias crateras circulares aparecem.
Ainda não se conhece o tamanho do buraco aberto pelo impactador, que era revestido com cobre. Pode ter a área de um casarão ou até de um estádio de futebol.
A nave-mãe, que gravou a operação a apenas 500 quilômetros, sobreviveu ilesa à colisão, segundo os cientistas.