Todos os anos, de outubro a novembro, milhares de agricultores palestinos lutam para realizar a colheita de azeitonas em terras roubadas por Israel
03/12/2010
Dafne Melo
da Redação
“Você está com medo?”, pergunta o palestino que dirige o carro em direção a uma casa cercada por uma colônia israelense. Diante da negativa, ele ri e completa: “pois eu estou, tenho a impressão de que a gente vai cair dentro da colônia”.
No banco de trás, outro companheiro palestino procura tranquilizar o da frente. “Já vim aqui, conheço o dono da casa, pode ir em frente, mas nada de fotos”, diz, apontando a torre de segurança na entrada da colônia, a poucos metros de nós. “Você está com dois palestinos e tudo o que eles querem é uma desculpa para atirar”.
Na entrada da casa, somos atendidos por um senhor com cerca de 70 anos, robusto, pele queimada de sol, cara de poucos amigos*. Os três palestinos conversam, em árabe, por longos minutos. Logo, vem a tradução: “Ele disse que te recebe com prazer na casa dele, mas que nada de entrevistas, fotos, nada. Não quer que você coloque o nome dele, o lugar onde está a casa, nada”. Por quê? Pergunto, insistente.
Ainda com cara de poucos amigos, ele responde: “Você não é a primeira e nem a última gringa que vem escrever sobre a minha história. Mas vocês vêm aqui, escrevem, voltam para seus países e eu continuo aqui nesta situação”, resume. Antes mesmo de a reportagem aceitar as condições, o senhor dispara a falar e se aproxima da grande janela da sala em que estamos, afastando a cortina. O vidro está todo quebrado, com diversos buracos provocados por disparos de armas de fogo e outros maiores feitos por pedras.
O senhor nos vai guiando pelo lado de fora casa, mostrando as pedras – grandes, na maioria. Ele explica que todos os dias elas são disparadas em direção a sua casa, onde vive com sua esposa e dois filhos pequenos. “Meus filhos não podem sair para brincar do lado de fora”, diz, com a indignação já tomando todo o espaço da desconfiança inicial.
Roubo
Ele nos leva a um terreno ao lado da casa, onde plantou grandes árvores ao redor, formando uma espécie de muro de proteção. Conta que comprou a casa e as terras ao redor dela antes de 1967, ano em que Israel invadiu a Cisjordânia, na Guerra dos Seis Dias.
Israel tentou comprar a casa, mas ele se nega a vender e a sair dali. Ao lado dela, foi construída uma colônia que praticamente cerca todas suas laterais esquerda e superior. O senhor explica que as pedras e tiros vêm dos próprios colonos, que agem com a conivência dos soldados que fazem a guarda da colônia.
No terreno lateral, ele cultiva batatas, ameixa, amêndoas e outras frutas. Na parte de baixo do terreno, à vista da torre militar, possui alguma oliveiras, e, quando desce para trabalhar nessas terras, da torre vêm ameaças de tiro. “Eles gritam que se eu não sair, eles vão atirar. Não ligo, continuo lá trabalhando. Que atirem. Desta terra, eu só vou sair morto.”
Essa história não é única. Onde foram construídas colônias, que já ocupam quase metade de toda área da Cisjordânia, foram roubadas as terras de quem estava ali antes: os palestinos. As propriedades também foram confiscadas para a construção de estradas de circulação exclusiva dos israelenses, que ligam as colônias às grandes cidades israelenses e outros estabelecimentos, como bases militares.
Na pequena cidade de Ni’lin, por exemplo, próxima à Ramallah (capital administrativa da Cisjordânia), uma colônia foi construída exatamente entre as casas e as plantações de oliveiras, o que, na prática, impede que os agricultores possam ir trabalhar e realizar a colheita em suas próprias terras. A destruição desses plantios, com uso de fogo ou máquinas, também é um recurso bastante usado pelo exército israelense.
Resistência
A colheita de azeitonas ocorre entre outubro e novembro de cada ano. Para os agricultores palestinos, ser capaz de conseguir chegar até essas oliveiras e fazer a colheita se transformou em uma luta e também em um símbolo de resistência. A atividade é parte importante do patrimônio e tradição da Palestina.
Como o Estado israelense costuma reprimir brutalmente os agricultores, há alguns anos algumas organizações de direitos humanos e que aglutinam agricultores palestinos têm promovido brigadas internacionais com voluntários de diversos países. Isso porque, com a presença estrangeira, o Exército israelense tende a diminuir o nível de violência empregada. Neste ano, a Via Campesina Brasil, representada pelo Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), se fez presente com dois integrantes. “A colheita de azeitonas deste ano foi uma das mais violentas, pois muitos colonos de Israel atacaram camponeses palestinos, impedindo a colheita de suas plantações. Houve mortes e muita gente ferida”, relata Ivori Moraes.
Somente no final de outubro, quatro organizações israelenses de direitos humanos – Associação de Direitos Civis de Israel (Acri, sigla em inglês), B'Tselem, Rabinos pelos Diretos Humanos e Yesh Din, em um relatório conjunto, denunciaram 35 casos de vandalismo em plantações de oliveiras de palestinos, por parte de colonos judeus. O relatório ainda afirma que a maioria das ocorrências foi registrada, mas que quase nada foi feito pelas autoridades israelenses para averiguar os fatos.
* depoimento dado durante viagem da repórter à Palestina, em junho deste ano