Rio de Janeiro, 26 de Janeiro de 2026

Soltando os cachorros

Por Flávio Aguiar: A medida mais controversa na estratégia de repressão aos movimentos sociais e ONGs que protestarão contra a reunião do G-8, na Alemanha, foi a constituição de um "arquivo de olfato", pela polícia, para localizar manifestantes em passeatas e comícios.

Sábado, 26 de Maio de 2007 às 09:01, por: CdB

A próxima reunião do G-8, que terá lugar na cidade de Heilingendamm, junto ao litoral norte da Alemanha, já está deixando rastros de confrontos políticos e de polêmicas amargas na imprensa, no governo e junto à população germânica.

A reunião do G-8 congrega os governantes das sete nações mais industrializadas do mundo, Estados Unidos, Alemanha, França, Reino Unido, Itália, Japão, Canadá, mais a Rússia. É sempre um encontro de cúpula onde se pretende discutir a ordem e a pauta internacional relevantes para o mundo inteiro. O G-8 comecou como G-6, em 1975, sem o Canadá, que entrou para o grupo em 1976, e a Rússia, admitida em 1998.

Desde o começo as reuniões do grupo atraíram manifestações contrárias com milhares de participantes nestes protestos. O ponto mais dramático desses confrontos deu-se em Gênova, na Itália, quando foi morto pela repressão o estudante Carlo Giuliani, desde então considerado um símbolo dos protestos e sempre lembrado nas manifestações e no Fórum Social Mundial.

Neste ano, em Heilingendamm medidas excepcionais de segurança estão sendo postas em prática. As forças de segurança estão construindo uma cerca de 12 km de extensão ao redor da pequena cidade, para isolá-la dos manifestantes. Estes, congregados em diversas organizações de diferentes tipos, natureza e história, pretendem se reunir na cidade vizinha de Rostok, onde se planeja uma gigantesca manifestação para o dia 2 de junho, um sábado, quando os trabalhos preliminares já estarão instalados.

O encontro dos chefes de Estado começa no dia 6 de junho e vai até o dia 9. Para o dia 6, quando chegam os presidentes e primeiros-ministros, os manifestantes contrários prevêem o bloqueio de estradas para impedir o acesso à cidade por parte dos que deverão trabalhar durante o encontro: sem tradutores, garçons, cozinheiros, etc., a reunião poderá ser comprometida, uma vez que será certamente impossível bloquear o acesso dos governantes, que do aeroporto vizinho irão de helicóptero para o local escolhido.

Mas os confrontos já começaram. Da parte dos movimentos de oposição, as ações preferidas têm sido ataque como a queima de carros ou o apedrejamento de casas e veículos de políticos conservadores alemães. Somente em Berlim, desde o final de março registraram-se 30 casos de queima de carros. Também registraram-se casos em Hamburgo e Bremen, pelo menos.

Da parte da polícia e demais forças de segurança, tomaram-se medidas consideradas por vezes excessivas e preocupantes. A polícia invadiu, em operações com grande aparato, sedes de movimentos de oposição e estudantis, o que provocou sérios conflitos em várias cidades, inclusive nas três já mencionadas, aprendendo documentos e fichando nomes de ativistas.

A medida mais controversa, que provocou polêmica inclusive dentro do governo chefiado pela primeira ministra conservadora Angela Merkel, foi a constituição de um "arquivo de olfato" para localizar determinados manifestantes durante as passeatas e comícios na semana do G-8.

Nas batidas realizadas, os policiais guardam peças utilizadas pelos manifestantes visados: roupas, sapatos, pedaços de pano de estofados, e assim por diante. Na hora da manifestação e dos possíveis confrontos, essas peças arquivadas são dadas a cães treinados que em seguida são lançados em meio aos manifestantes, com policiais, para localizar os "donos" dos registros olfativos... e detê-los.

A medida provocou protestos de intelectuais, escritores e até dentro do governo, pois a ministra da Justiça, Brigitte Zypries, declarou-se contrária a ela, e exigiu que esses "arquivos" sejam destruídos. Muitos dos protestos lembram que esse método - o registro olfativo - era utilizado pela polícia política (a Stazi) da antiga Alemanha Oriental, a RDA. Fontes ouvidas por este editor lembram inclusive que a presença histórica da RDA, mais próxima, obnubila reminiscências mais antigas e desagradáveis quanto à presença de cães na repres

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