Rio de Janeiro, 26 de Abril de 2026

<i>Soldado anônimo</i> transforma a guerra em algo surreal

Quinta, 05 de Janeiro de 2006 às 17:22, por: CdB

Soldado Anônimo, que entra em cartaz nesta sexta-feira, fala sobre o tédio que é a espera pelo início de uma guerra, sobre a bebedeira, as brincadeiras, a luxúria reprimida e os palavrões de um punhado de jovens de 20 anos cheios de adrenalina, sentados em um deserto árabe surreal, imaginando "quando nós vamos matar alguém?". Fala sobre todo aquele tédio e solidão, interrompidos por momentos de puro terror.

Ao adaptar o livro de Anthony Swofford, de 2003, o roteirista William Broyles Jr. e o diretor Sam Mendes enfrentam, mas não chegam a resolver totalmente, um problema inerente a essa questão. Eles claramente quiseram evitar a política ao redor da primeira Guerra do Golfo, mesmo quando eles homenageiam os marines, os soldados anônimos, que foram para a Arábia Saudita lutar. O resultado é um filme cheio de ambivalências.

Aqui e ali há momentos que podem lembrar Apocalipse Now ou Nascido para Matar, mas Soldado Anônimo se recusa a se envolver nos eventos que descreve. Por isso o filme parece vazio e experimental. O longa-metragem tira sua força de um best-seller e de jovens atores talentosos como Jake Gyllenhaal, Peter Sarsgaard e Jamie Foxx. No entanto, Soldado Anônimo vai ser um produto duro de vender para o departamento de Marketing da Universal. Isso porque as pessoas já têm sua cota do Iraque e da guerra nos noticiários.

Além disso, o filme captura de maneira bem-sucedida demais o tédio e a impaciência de seus personagens para servir como produto de entretenimento.

Fogo amigo

Gyllenhaal é Swofford, a terceira geração de sua família a ingressar nos Marines bem em tempo de ir para Arábia Saudita lutar. O filme nunca explica o que o levou a se alistar. De fato, o narrador/herói fecha a porta sobre qualquer cena sobre seu passado, exceto quando dá a entender que não teve uma infância feliz. Durante os rigores angustiantes do campo de treinamento, o sargento Sykes (Foxx), um militar que adora seu trabalho, seleciona Swoff para sua unidade de atiradores de elite.

Sykes coloca Swoff como parceiro de Troy (Sarsgaard), um jovem cujo exterior calmo esconde um interior turbulento. Outros soldados da unidade incluem o intelectual falastrão Fowler (Evan Jones), o tímido Fergus (Brian Geraghty), o casado Cortez (Jacob Vargas) e o cubano-americano Escobar (Laz Alonso). A maior parte do filme acontece na enorme vastidão do deserto, onde todos cavam e esperam. Sem um inimigo para combater, os conflitos surgem dentro das próprias trincheiras.

Os marines têm uma solução para tudo, destaca Swoff, mas nenhuma para quem está prestes a enlouquecer. Surgem brigas. Os rapazes começam a se provocar sobre o que as esposas ou namoradas estão fazendo em casa. Os gracejos e piadas giram quase que inteiramente em torno de sexo e violência. Sykes também não ajuda ao distribuir castigos maliciosos para seus subordinados, como forçá-los a jogar futebol debaixo de um calor abrasante, com máscaras e trajes contra ataques químicos. Então, chega a guerra. E as coisas ficam realmente loucas.

Dias de hoje

Essa não é uma boa guerra para um franco atirador. Não quando um caça F-14 pode incendiar um batalhão inteiro. Então mesmo quando os soldados ficam sob tiroteio - e Swoff literalmente molha as calças - e entram em território inimigo, há pouco a fazer a não ser tentar evitar o "fogo amigo". Em tal cenário infernal, dúvidas sobre o papel deles e sobre a própria guerra consomem qualquer um.

E aqui está o ponto crucial da questão. Não mais disposto a fazer um filme contra a guerra, como os cineastas faziam nas vésperas do conflito do Vietnã, o filme de Mendes admira os marines, mesmo quando destaca suas frustrações e raiva. O ponto-de-vista neutro faz o longa observar eventos intensos em um grau desapaixonado sem realmente lidar com as grandes questões levantadas pela guerra: a da brutalidade das

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