Boaventura de Sousa Santos Muito bom - uma daquelas análises imperdíveis - o texto que o sociólogo português Boaventura de Sousa Santos, sob o título "O caos na ordem", publica hoje na Folha de S.Paulo (para assinantes). "Em Londres, estamos perante a denúncia violenta de modelo que tem recursos para resgatar bancos, mas não os tem para uma juventude sem esperança".
Autor, dentre outros livros, de "Para um Revolução Democrática da Justiça" e diretor do Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra (Portugal), Boaventura vai ao cerne das raízes e do ponto central que deflagraram a onda de distúrbios públicos e violência que conflagram as ruas da capital e das principais cidades da Inglaterra.
Em seu texto, ele mostra - como eu, também, o fiz várias vezes aqui no blog - que a convulsão que sacode as ruas inglesas vai muito além de uma simples ação comum de criminosos, vândalos e arruaceiros como quer fazer crer (pelo menos tentou no início) o governo do primeiro-ministro David Cameron (Partido Conservador).
Mídia encampa o que nem a oposição inglessa aceitou
A questão, insisto - e insiste Boaventura de Sousa Santos em seu artigo de hoje - vai muito além de simples reação e arruaças de populares diante da execução pela polícia daquele rapaz, como tentou no início dos distúrbios impingir à população o governo conservador inglês.
Ela eclode de bairros populares, alguns com as taxas de criminalidade dentre as mais altas do mundo e onde são altíssimos os índices de desemprego, particularmente entre os jovens. É uma rebelião social, de fato, aos pacotes impostos e executados pelo ocupante de Downing Street 10 (David Cameron) para superar na Grã-Bretanha a crise econômica global.
O estopim da revolta popular inglesa é social e não uma ação de simples criminosos. Nossa imprensa passa ao largo disso e ainda não entrou em profundidade na questão, porque é chapa branca mesmo.
Chapa-branca desde que seja pró-governos de direita, conservadores. Só que desta vez, e no caso da Grã-Bretanha, nossa mídia embarcou num reacionarismo e acolheu uma versão que nem mesmo a oposição inglesa do Partido Trabalhista engoliu.
Foto: site Boaventura de Sousa Santos.