Durante uma palestra de Gustavo Gutiérrez na cidade doMéxico, quando foi elaborado o Compêndio de Doutrina Social da Igreja daAmérica Latina, um participante se levantou e lhe perguntou: "a Teologia daLibertação está morta?”
Ele olhou o rapaz com um sorriso e respondeu: "se elamorreu, eu não fui convidado para seu funeral”.
Já citei esse fato em outro artigo, mas foi inevitável suaretomada diante das revelações do WikiLeaks sobre uma conversa entre orepresentante do Vaticano e o embaixador dos Estados Unidos a respeito daAmérica Latina, da atuação da Igreja Católica no continente, do crescimento dosevangélicos e, sobretudo, de uma tal "ressurreição da Teologia da Libertação”.
Primeiro, chama a atenção a declaração do Monsenhor StefanoMigliorelli, afirmando que a fé por aqui é inconsistente, tendo a evangelizaçãoque recomeçar do zero, sendo ainda o continente praticamente um território de missão.
Que seja um território de missão até os bisposlatino-americanos sabem, tanto é que o Documento de Aparecida vai ter comocentro exatamente a missionaridade. Talvez aí já se explique porque ela setornou central no documento, isto é, havia a mão de Roma por detrás.
Por outro lado, afirmar que a fé aqui é inconsistente énegar um povo continental. Nosso cristianismo nasceu sob a batuta da cruz e daespada, da escravização e redução indígena, do batismo dos negros nos portos epelourinhos, da derrubada e usurpação dos templos incas, astecas e maias, dabíblia nas mãos de Cortés como senha para a matança dos Astecas. A matançachegou a tal ponto que Bartolomeu de Las Casas chegou a proclamar: "é melhoríndios pagãos vivos, que índios cristãos mortos”. Se os índios brasileirosfossem erguer uma cruz para cada um de seus mártires, o Brasil teria queresgatar seu nome de Terra de Santa Cruz.
Mesmo assim, nosso povo costurou sua fé a partir de baixo,de seus sofrimentos, mas também de sua insuperável alegria e fé na vida. Ossantos, Maria, Jesus, são seus familiares, que estão no altar de suas casas,nas suas múltiplas manifestações religiosas. E que ninguém diga que aí está umafé de segunda classe. Quem vive perto do povo sabe que ali está o lugar de encontrodo Deus da Vida com seu povo simples. Aliás, o próprio Documento de Aparecidavai fazer justiça à fé popular, reconhecendo-a como uma fé autêntica everdadeira.
Quanto à Teologia da Libertação –não há um cristianismo delibertação sem uma teologia correspondente-, nem está ressuscitando, nem jamaismorreu. Deixou de ser hegemônica e passou a ser a teologia, a espiritualidade,a prática de minorias dentro da Igreja. Porém, não perdeu sua capacidade defermentação.
Ela prossegue por razões muito simples de seremcompreendidas por aqueles que são movidos pela com-paixão do Espírito de Jesus.Hoje no mundo existe um bilhão de famintos, 1,2 bilhões de sedentos e o planetaTerra pode estar entrando numa extinção em massa semelhante às outras cinco quejá aconteceram. Deus não abandona seus deserdados, nem a Terra que criou.
Portanto, a opção pelos deserdados da Terra, e pela própriaTerra, antes de ser uma opção da Igreja, é uma opção do próprio Deus.