Rio de Janeiro, 05 de Novembro de 2026

Socialistas franceses têm a chance de voltar ao poder

Sexta, 16 de Setembro de 2011 às 13:17, por: CdB

Socialistas franceses têm a chance de voltar ao poderO socialismo francês não ganha uma eleição presidencial há mais de uma década. O PS francês perdeu em 1995, em 2002 e em 2007, quando Sarkozy bateu amplamente a Ségolène Royal. Agora, com a crise e a acidentada presidência de Sarkozy, os socialistas tem sólidas possibilidades de ganhar em 2012. François Hollande e Martine Aubry são os principais nomes do partido na disputa pela indicação. O artigo é de Eduardo Febbro.

Eduardo Febbro - Correspondente da Carta Maior em Paris

A esquerda francesa começou esta semana seu processo de eleição interna para escolher o candidato às eleições presidenciais de 2012. Cinco candidatos do Partido Socialista e um do Partido Radical de Esquerda (PRG) iniciaram o balé das primárias através de um debate televisivo no qual os seis candidatos expuseram suas propostas para a eleição que designará um deles como candidato nas prévias em dois turnos que serão realizados em 9 e 16 de outubro.

O socialismo francês escolheu uma fórmula de alto risco que coloca aos postulantes à indicação dois condicionantes de peso: não questionar o programa socialista apresentado em abril passado, não se destruírem entre si diante de uma sociedade que não está acostumada a esse tipo de choque no interior de um mesmo partido. Tal como estão organizadas, as primárias socialistas não tem precedentes: pela primeira vez na história política da França o voto é aberto, ou seja, todos os cidadãos podem participar desde que pague um euro e assine um documento onde certifica sua adesão aos princípios da esquerda. O PS calcula que no próximo dia 9 de outubro seis milhões de pessoas participarão da eleição.

Os cinco candidatos – o sexto pertence aos radicais de esquerda – devem expor suas prerrogativas respeitando a base comum constituída pelo projeto socialista de abril. Trata-se de um documento que consta de 30 propostas articuladas sob o lema “A mudança”. Esse programa propõe a criação de 300 mil postos de trabalho para os jovens que seriam respaldados pelo Estado, uma subvenção destinada a pagar os estudos, um “acompanhamento” dos preços dos aluguéis, impostos sobre os lucros petroleiros, impostos sobre o capital, sobre as famosas stock-options, a promessa de sair da “dependência nuclear” mediante o desenvolvimento das energias renováveis e o retorno da aposentadoria aos 60 anos instaurada pelo falecido presidente socialista François Miterrand (1981-1995). O atual presidente, Nicolas Sarkozy, mudou essa disposição em 2010.

O socialismo francês não ganha uma eleição presidencial há mais de uma década. Nos últimos 52 anos, só François Miterrand conquistou o mandato presidencial em duas ocasiões, 1981 e 1988. O PS francês perdeu em 1995, em 2002 e em 2007, quando Sarkozy bateu amplamente a Ségolène Royal. A esquerda socialista conta hoje com sólidas possibilidades de ganhar em 2012. A acidentada presidência de Sarkozy, o cansaço da sociedade ante um Executivo associado a um “governo para os ricos”, a própria dinâmica do PS, os efeitos da crise financeira e uma paulatina, mas evidente, restauração do discurso da social democracia europeia coloca o partido em posição de força mais uma vez. O grande desafio do PS consiste hoje em reconquistar o eleitorado popular que perdeu nos últimos dez anos. O PS foi, pouco a pouco, cortando os laços com suas bases históricas. Em troca, recuperou um eleitorado mais jovem e urbano, mas deixou no caminho o apoio da classe trabalhadora e popular que se mudou para a direita.

Dos seis candidatos, dois despontam como favoritos: a atual primeira secretária, Martine Aubry, conta com 29% das intenções de voto na interna contra 47% para o favorito, o ex-primeiro secretário François Hollande. As pesquisas mostram uma tendência vitoriosa: qualquer um dos dois derrotaria Sarkozy nas eleições de 2012. A correlação de forças das pesquisas revela também que o PS saiu ileso do escândalo sexual que envolveu aquele que aparecia como o mais sólido homem político da esquerda, o ex-diretor gerente do Fundo Monetário Internacional, Dominique Strauss-Khan. Ele é o grande ausente da disputa. Sua carreira política, ao menos neste período, caiu no abismo por causa do escândalo de uma suposta agressão sexual em um hotel de Nova York, acusação da qual ele acabou absolvido.

Os outros quatro candidatos não tem base suficiente para ameaçar Aubry ou Hollande: a candidata socialista de 2007, Ségolène Royal, totaliza 12 % das intenções de voto, Arnaud Montebourg 6%, Manuel Vals 4% e Jean M. Baylet, presidente do Partido Radical de Esquerda, PRG, 1%.

A economia foi o tema dominante do primeiro debate. Hollande e Aubry apresentaram ideias para estabilizar e sanear o sistema financeiro, criar mais trabalho e recuperar o crescimento. François Hollande ampliou seu programa de três pontos enquanto que Martine Aubry foi mais ousada com uma série de propostas claramente de esquerda. As principais propostas de Hollande consistem de uma ampla reforma fiscal, ajuda para as empresas não demitirem pessoas de idade mais avançada e ao mesmo tempo oferecerem trabalho aos jovens, professores suplementares para melhorar a qualidade da educação e redução de 85% para 50% do dispositivo francês de energia nuclear.

Martine Aubry prometeu impostos para os bancos e as companhias petroleiras, impostos sobre as grandes fortunas, taxação da especulação financeira, regulação do sistema financeiro, justiça social, preservação do poder aquisitivo e supressão de aproximadamente 50 bilhões de euros em benefícios fiscais outorgados pela atual maioria conservadora aos ricos.

A partir de agora, o PS começa a jogar seu destino em uma sociedade cansada das estropelias de Sarkozy e com o pano de fundo de uma esquerda europeia amordaçada pela crise financeira e a tormenta na zona euro: regime e reforma fiscal, rigor orçamentário, energia nuclear, educação, desemprego, imigração, impostos sobre as grandes fortunas, taxação de capitais, justiça e regulação do sistema financeiro são os temas centrais em torno dos quais se construirá a legitimidade da candidatura.

A ocasião é única. O PS nunca saiu da indefinição entre socialismo liberal, reformismo, socialismo ao melhor estilo da tradição francesa ou social democracia de centro esquerda. O incremento vertiginoso da pobreza nos países ocidentais, a crise financeira, a hecatombe provocada pelos mercados, a impunidade global do sistema e os riscos alucinantes que o liberalismo sem freio nem lei fazem correr as sociedades dão ao PS um leque de argumentos para recuperar a legitimidade de seu programa. Só falta saber se dará o passo seguinte ou, como até agora, permanecerá com o coração e as palavras à esquerda e os atos na direção oposta.

Tradução: Katarina Peixoto


Tags:
Edições digital e impressa