Rio de Janeiro, 24 de Abril de 2026

Socialismo do século XXI: o que é isso?

Por Francisco Carlos Teixeira - A composição plural e as lutas de novo tipo - envolvendo etnia, ecologia, gênero, direito ao lazer, etc. - assumiram, ao lado do viés nacionalista e antiimperialista, um papel central no processo transformador da América Latina. (Leia Mais)

Terça, 31 de Janeiro de 2006 às 14:34, por: CdB

A maior parte dos participantes, ao final dos trabalhos do FSM aqui em Caracas, concorda em que a grande novidade no alvorecer do século XXI é a nova popularidade do socialismo. A derrubada do Muro de Berlim, em 1989, e o conseqüente fim da URSS em 1991, teriam marcado o fracasso do mais amplo experimento socialista da história. Para muitos - como os defensores do conceito do "fim da história" - teríamos chegado a um momento em que as utopias estariam se realizando no tempo presente. Ou, talvez, uma das utopias teria mostrado sua força e sua capacidade de realização das condições de bem-estar do homem: a utopia capitalista. Para estes, a junção das formas da democracia liberal/representativa e as instituições do chamado "livre mercado" teriam saído vencedoras da longa prova representada pela Guerra Fria (1947-1991) entre o capitalismo e socialismo. Alguns lembrariam que esta "guerra fria" entre utopias teria começado mesmo antes em 1917 - com a Revolução Russa - ou mesmo em 1848 - com as revoluções sociais do século XIX e a publicação, por Marx e Engels, do Manifesto Comunista.

O retorno do Socialismo:

Bem ao contrário do que a avalanche (neo)liberal assegurava nos anos '90, as "receitas" da felicidade liberal não garantiram, de forma alguma, bem-estar e segurança para milhões e milhões de pessoas em todo o mundo. As décadas de '80 e '90, especialmente na América Latina assistiram ao fim de inúmeras ditaduras, militares ou não, existentes no continente. Na maioria das vezes amplas coalizões de forças - formadas desde a esquerda marxista até liberais e democratas-cristãos - substituíram os regimes autoritários existentes.

Durante a longa luta pelo "retorno" do Estado de Direito, as forças populares procuraram sempre alargar, expandir ao máximo, os conceitos políticos clássicos. Assim, o próprio conceito de cidadania, chave no processo de combate das arbitrariedades e casuísmos do autoritarismo, sofreu uma transmutação fundamental. Em sua origem clássica, nos pensadores liberais dos séculos XVII e XVIII, como Locke, Jefferson e Adams - a idéia de cidadania prendia-se exclusivamente ao universo político, remetendo-se a uma série de direitos - tais como acesso ao voto, debate da taxação, respeito com as instituições da esfera privada da vida.

Assim, nas grandes coligações anti-ditatoriais dos anos '80 e '90 na América Latina, os grupos políticos liberais, democrata-cristãos e, mesmo, muitos dos socialistas ( perplexos em face da crise do chamado socialismo "real" ) exigiam o "retorno" - e aí já havia um tremendo equívoco! - do Estado de Direito. Para estes, tratava-se de garantir o direito de voto, a liberdade de imprensa e de organização partidária, a inviolabilidade da pessoa humana, etc...

Tal agenda era, sem qualquer dúvida, aceita pelas forças populares, mais à esquerda, e pelas grandes massas que marcharam pelas ruas de Buenos Aires, Rio de Janeiro, Santiago de Chile ou Montevideo exigindo "democracia já". Um outro equívoco, este ainda mais dramático, insinuava-se em tais manifestações unitárias. Para as grandes massas populares, depauperadas com a crise do endividamento e o esgotamento do modelo de industrialização por substituição de exportações, a "volta" do "tal Estado de Direito" deveria representar, acima de tudo, ganhos bastante concretos, tais como empregos (de qualidade) e segurança pessoal.

Do equívoco à revolta:

Mais experientes, muitas vezes sócios até a vigéssima quinta hora das ditaduras, as forças liberais assumiram - urbi et orbi na América Latina - a direção dos processos de transição. Diferentes leis de anistia, de esquecimento e de "punto final" vieram lançar uma espessa pátina, uma graxa de esquecimento, sobre os mais diferentes crimes praticados, muito especialmente a tortura e a corrupção, incluindo-se aí os mecanismos absolutamente antinacionais do endividamento de mais de uma dezena de nações. Tudo se fazia em nom

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