Os sobreviventes do primeiro holocausto nuclear da história estão preocupados com a possibilidade de os jovens esquecerem o que ocorreu há sessenta anos e de não estarem compreendendo o sentido do aniversário celebrado neste sábado.
- Nós nos preocupamos com o futuro do Japão. Os jovens não levam a sério a guerra, não sabem o que ela é - disse Yoshitaka Kodama, habitante de Hiroshima que perdeu 10 membros de sua família de forma instantânea pela explosão atômica ocorrida quando tinha apenas seis anos.
- Minha casa caiu. Lembro que não encontrávamos meu avô. Acho que ele também derreteu. Só ficou para trás sua memória - diz este homem que aos 66 anos se declara incapaz de visitar o Museu da Bomba onde se ilustram os efeitos da explosão.
- Passamos quase sessenta anos sem deixar que o Exército saísse do Japão, sem saber o que era uma guerra - explicou Kodama.
Ao comentar a cerimônia anual, ele lamenta que ela tenha perdido o sentido original.
- Agora é uma espécie de festa - comenta com amargura no final da homenagem anual de hoje na qual cerca de 55 mil pessoas lembraram a data mais nefasta da cidade.
- Os jovens não se implicam muito com tudo isso - concordou Yasutoshi Hirayama, que em 1945 viu a explosão da bomba lançada pelos Estados Unidos a alguns quilômetros de distância.
- Deveríamos saber dizer-lhes quão trágico foi aquele momento. É nosso dever - acrescentou enquanto buscava a sombra nas árvores do Parque da Paz, uma ampla zona verde que continua livre de edificações como memória da devastação.
Só as ruínas da antiga Câmara de Promoção Industrial, com o esqueleto de seu teto em forma de cúpula, permanece como emblema do ataque nuclear que, junto ao de Nagasaki três dias depois, levou à rendição do Japão na Segunda Guerra Mundial.
- Freqüentemente passo por esta rua e penso que o verde é muito lindo, que é o símbolo da paz, e que deveríamos conservá-lo eternamente - continuou Hirayama, lamentando o tempo que demorou par que as plantas voltassem a crescer.
- A verdade é que os jovens não sabem muito bem o que aconteceu - confessou Satoshi Hokimoto, que não foi à cerimônia, mas viajou para Okayama para visitar sua namorada e aproveitar o fim de semana.
- Só sei que atiraram uma bomba nuclear na Segunda Guerra Mundial e que morreram 10 mil ou 100 mil pessoas - duvidou.
- Deveria ter estudado mais - sugere.
Os discursos do prefeito da cidade e do primeiro-ministro, Junichiro Koizumi, aportaram a retórica oficial a uma cerimônia que tradicionalmente presta homenagem aos mortos e aos sobreviventes do holocausto.
Segundo estatísticas recentes, 45% das 280 mil pessoas que sobreviveram às radiações das bombas atômicas arrojadas pela aviação americana sobre Hiroshima e Nagasaki no final da Segunda Guerra Mundial continuam vivas.
Muitos dos sobreviventes ou seus familiares foram convocados no final da cerimônia de hoje pelo fotógrafo Kazukai Kuramoto e por professores de arte da Universidade de Hiroshima para posar a margem de um rio que fica em frente às ruínas da cúpula emblemática.
Enquanto um cantor tocava <i>Imagine</i>, de John Lennon, um helicóptero fotografou a multidão a 600 metros de altura, o lugar onde aproximadamente a bomba explodiu, para ser mais letal.