Rio de Janeiro, 10 de Agosto de 2026

Sob a gestão do aperto

Terça, 22 de Fevereiro de 2011 às 09:05, por: CdB

Governo do PSDB prova como o transporte sobre trilhos pode ficar ainda pior

22/02/2011

 

Eduardo Sales de Lima

da Redação

 

As panes são mais frequentes. Em 2010, as lotações nos trens do Metrô (Companhia do Metropolitano de São Paulo) e da CPTM (Companhia Paulista de Trens Metropolitanos) ultrapassaram o limite do absurdo. Além disso, eles ficaram mais lentos. No âmbito burocrático, denúncias de corrupção no caso Alstom até agora não deram em nada. Aliás, o promotor Silvio Marques, chefe da força-tarefa do caso Alstom, ainda não se pronunciou. Ele está na França, onde realiza curso de doutorado. Só na Linha 4 – Amarela, inúmeros acidentes, dentre os quais o de 2007, que resultou na morte de sete pessoas.

Entretanto, vamos ao que influencia de forma mais direta a percepção da população, o seu cotidiano. De acordo com o Sistema de Indicadores de Percepção Social (SIPS), do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), quesitos como conforto, rapidez e preço mais barato seriam as principais condições, nessa ordem, para que os brasileiros passem a utilizar o transporte público. Ou seja, eficiência no transporte público, para os brasileiros, passa por esses três pontos. E para os brasileiros que residem na cidade de São Paulo, definitivamente, conforto, rapidez e preço justo parecem conceitos ainda muito distantes da realidade do Metrô e da CPTM.

Considerando apenas as linhas de metrô que estão nas mãos do Estado, do segundo semestre de 2010 para cá, pequenas e médias panes aumentaram consideravelmente em frequência. Só no ano passado foram contabilizados sete panes de relevância.

O laudo do Instituto de Criminalística (IC) apontou que a paralisação de 18 estações da Linha 3 – Vermelha do Metrô no dia 21 de setembro de 2010 foi motivada por falha técnica. Aconteceu que a superlotação de um vagão na Linha 3 – Vermelha pressionou a porta, acionando o sinal vermelho que impediu o condutor de continuar a viagem quando o trem estava parado próximo à estação Sé. Os usuários desceram aos trilhos, o que levou o Metrô a cortar a energia de toda a Linha Vermelha e gerar pânico a dezenas de milhares de pessoas durante as quatro horas de paralisação da linha.

 

Má gestão

De acordo com Ciro Moraes dos Santos, diretor do Sindicato dos Metroviários de São Paulo, o metrô perdeu qualidade, segundo ele, por conta do processo de privatização, levando em conta que “terceirizaram as bilheterias e o serviço de manutenção”. A Linha Vermelha é a que apresenta maior índice de superlotação no horário de pico com 11 pessoas por metro quadrado enquanto o padrão internacional é de 6. “Eles [governos tucanos] preferem ônibus cheios que ônibus confortáveis; e o metrô é a mesma coisa. Vai que nem sardinha”, critica Ciro Moraes.

Essa lotação dos trens, de acordo com a economista Ceci Juruá, é a forma eficaz de garantir o lucro. E, no caso de São Paulo, é o próprio poder público levantando essa bandeira. “Eles demoram a ampliar. Para encomendar trem, botam até o máximo da lotação para maximizar o lucro, e adiam até o máximo a compra de material suplementar para ganhar mais”, critica a economista.

Dessa forma, se de acordo com a pesquisa do Ipea, eficiência para os brasileiros significa conforto, rapidez e preço mais barato, para as empresas de transportes e para administração do Estado de São Paulo, o conceito de eficiência parece ser outro. “Eficiência para essas empresas significa ter lucro, e não conforto. Isso eles conseguem. O que não conseguem é dar um serviço de boa qualidade, confortável e com uma tarifa compatível com a renda do trabalho”, explica a economista.

Dados de pesquisa da Agência Nacional de Transporte Público (ANTP) sobre a imagem que a população tem do transporte público revelaram que as linhas Verde e Vermelha do Metrô tiveram os piores desempenhos da história. No caso da Linha Verde, o índice de usuários que a classificam como boa ou excelente caiu de 88% para 84% de 2009 para 2010.

Os trens da CPTM são pior avaliados. Apenas 54% dos entrevistados acham o transporte bom ou excelente. Mas há melhora em relação aos anos anteriores. Em 2008, apenas 48% achavam os trens bons.

O Metrô considera, porém, que no caso específico da lotação dessa linha o que ocorre é um resultado natural do aumento de sua utilidade. Sérgio Aveleda, presidente da estatal, chegou a declarar que “a tendência natural é que seu nível de conforto diminua".

Para piorar, os trens ficaram mais lentos. O próprio Metrô fez um levantamento apontando que as composições chegaram a apresentar uma queda de 7% na velocidade média ao longo de 2010. O pior cenário foi registrado na Linha Verde onde os vagões trafegaram a 27,5 km/h no ano passado, contra os 29,6 km/h registrados em 2009.

 

Matilde

Ao Brasil de Fato, em novembro de 2009, a auxiliar de serviços gerais, Matilde Soares, 43 anos, mãe de três filhos, viúva, contava o quão cansativas eram as duas horas de viagem da sua casa, no município de Ferraz de Vasconcelos, localizado na região leste da Grande São Paulo, até o trabalho, no bairro do Tucuruvi, zona norte da capital. “Na troca de trem que a gente faz no bairro de Guaianazes, já me machuquei várias vezes, é um empurra-empurra, o trem que vai para Mogi demora a chegar, depois demora a partir, os trens que vêm da Luz não param de chegar, as plataformas vão ficando lotadas. É um descaso muito grande o que fazem com a gente”, contava.

Se, pelos dados do Ipea, da ANTP e do próprio Metrô, o desconforto nos trens ficou ainda pior durante o ano de 2010, Matilde, provavelmente, ficou mais irritada com o aumento da tarifa, que passou a R$ 2,90 a partir do dia 13, uma elevação de 9,43%.

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