O antropólogo Luiz Eduardo Soares, filiado ao PT do Rio de Janeiro, que ocupou até recentemente a Secretaria Nacional de Segurança Pública, entrevistado no programa Roda Viva, da TV Cultura, disse estar faltando coragem ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva para levar adiante compromissos históricos do partido, como a questão da segurança pública. Ele considerou indispensável a liderança do presidente para a solução dos problemas do setor, através de mais recursos públicos, da mobilização da sociedade e de encontros com os 27 governadores e com os prefeitos das principais cidades brasileiras.
Ele explicou que, ao contrário do governo FHC - que a cada ano elevava em 20% as verbas para a segurança pública -, o governo petista reduziu-as em mais de 100 milhões para o próximo exercício. "Estamos levando depressa demais para debaixo do tapete os nossos compromissos", afirmou.
Crise de identidade
Para Luiz Eduardo Soares, os petistas estão vivendo uma crise de identidade, como quem se mira no espelho e não reconhece a própria face. "Estamos (governando) sob o ponto de vista economicista, que é unilateral e que deixa de lado os sistemas civilizatórios, que sempre foram os nossos (do PT): as minorias, a questão indígena, a questão do meio-ambiente, a questão das drogas..."
Silêncio no Planalto
Sobre as razões que o levaram a se demitir da chefia da Secretaria Nacional de Segurança Pública, e do silêncio do Palácio do Planalto sobre sua queda, Soares disse que o nepotismo denunciado pela imprensa não foi o fator preponderante, mas deixou claro que não contava com a simpatia do ministro-chefe da Casa Civil, José Dirceu.
Ele esclareceu ter ouvido do deputado Jorge Bittar (PT-RJ) uma afirmação de Dirceu, logo após a eleição de Lula, de que se dependesse dele, não ocuparia qualquer cargo no governo petista. Isso, porque, segundo Dirceu, Soares teria boicotado a candidatura de Benedita da Silva ao governo fluminense. O antropólogo desmentiu a informação, recorrendo inclusive ao testemunho da própria Benedita.
- Eu continuo no PT, eu continuo lutando pelas teses que são as nossas. Eu não acredito que essas práticas , mesmo que elas não tenham acolhimento em instâncias superiores, essas práticas de dossiês, essas práticas que são abjetas e repulsivas encontrem abrigo neste partido que se democratiza. Se nós estamos, afinal de contas, nos atualizando em outras áreas, será que, na ética, nós vamos continuar repetindo procedimentos da direita mais atrasada, mais fascista? Se há algo contra mim, então que se exponha isso claramente e se diga do que se trata - afirmou.
Sobre os motivos reais que o levaram a demitir-se, Luiz Eduardo Soares revelou que, além de militantes radicais (responsáveis pelo dossiê com acusações a ele, distribuído internamente no partido), há empresas estrangeiras ligadas ao projeto de identificação, "que é um projeto bilionário".
- E, evidentemente, isso se casa com o aparelhismo de certos setores, que são atrasados... É extremamente importante que o governo tenha clareza e não fique refém dessas práticas. Se nós fingirmos que não está acontecendo nada, amanhã (o acusado) pode ser qualquer outro, porque esses procedimentos vão ser reproduzidos. E (aí) nós vamos ter uma casta burocrática, stalinista, que vai exercer uma democracia plebiscitária, que vai acuar o Judiciário e o Ministério Público para impor uma poder autoritário. Nós, no PT, não vamos admitir esse tipo de caminho - concluiu.
Soares ataca o PT em programa de televisão
O antropólogo Luiz Eduardo Soares,ex-secretário Nacional de Segurança Pública, entrevistado no programa Roda Viva, da TV Cultura, disse estar faltando coragem ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva para levar adiante compromissos históricos do partido. (Leia Mais)
Terça, 04 de Novembro de 2003 às 08:05, por: CdB