A situação política do governador de Brasília, José Roberto Arruda, torna-se insustentável à medida que ganham o público as imagens da distribuição de dinheiro no gabinete do executivo. Na noite passada, ele e seu vice, Paulo Octávio, divulgaram nota em que classificam de "ato de torpe vilania" e se dizem “ainda perplexos” com as denúncias contra o seu governo, mas que estariam tranquilos "porque sabemos de nossa inocência" e completam a nota afirmando que repelem "os açodados juízos" que estão sendo feitos sobre o caso.
A Polícia Federal deflagrou a Operação Caixa de Pandora na última sexta-feira e fez buscas e apreensões nos gabinetes de secretários de governo, deputados distritais e na residência oficial do governador. Arruda é acusado de coordenar um suposto esquema de corrupção.
Segundo analistas políticos ouvidos pelo Correio do Brasil, a derrocada de Arruda é "a pá de cal no projeto eleitoral Demo-tucano".
– A recente operação da polícia federal denominada “Caixa de Pandora” provocou um tsunami que vai muito alem das fronteiras do Distrito Federal. Já considerado o caso de corrupção mais documentado com vídeos e gravações de todos os tempos no Brasil envolvendo um governador e seu vice, o escândalo de distribuição de dinheiro de propina pagas a integrantes do governo do Distrito Federal, e repassados a políticos, não abala apenas a cúpula do Governo local, nem se restringe ao DEM, ele atinge o projeto de volta ao poder do consórcio formado pelo PSDB e os satélites DEM e PPS – disse o blogueiro Len, em uma das páginas políticas mais visitadas da web.
Ainda segundo o analista, "a oposição já atordoada pela popularidade inabalável do presidente da república, mesmo depois do desgaste de sete anos de governo e com imprensa jogando contra o tempo todo, ainda enfrenta a dificuldade da falta de discurso e propostas para o país, alem dos prognósticos de crecimento e otimismo na população, que dificulta o convencimento da necessidade da mudança do grupo político que está governando. Sendo assim, passaram a se agarrar na criação de factóides para tentar colocar a pecha de corrupto no governo atual, em uma tentativa desesperada que mostra a falta de confiança nos seus candidatos".
– Pela disposição inicial do Arruda de resisitir ao inevitavel, até porque não há como contestar as imagens, esse assunto vai se arrastar por meses, entrando em ano eleitoral e a chaga do DEM vai estar exposta à sociedade. Como uma chapa do PSDB e DEM, que não tem como usar outro discurso, vai falar sobre corrupção, com uma ficha corrida de escândalos sucessivos como os que aconteceram com seus políticos. Esse dois partidos, mesmo reduzidos a poucos governos estaduais e distrital, conseguiram ter escândalos graves em quatro: Rio Grande do Sul, Distrito Federal, Paraíba, Alagoas, fora os que são abafados em Minas Gerais e São Paulo – afirmou.
Campanha de 2006
Durval Barbosa, ex-secretário do Relações Institucionais do governo brasiliense, seguiu nesta segunda-feira com suas denúncias junto à PF e acrescentou que a campanha eleitoral do governador José Roberto Arruda (DEM-DF), em 2006, foi patrocinada pela propina das empresas fornecedoras, o que seria uma espécie de 'propinoduto do DEM. A PF investiga, ainda, se o esquema de financiamento da campanha teve início em 2004 e foi até 2006. Nas contas de Barbosa, o volume de propina superou os R$ 56 milhões ao longo desses últimos três anos.
Barbosa, que até sexta-feira ocupava uma secretaria do governo de Arruda, apresentou à PF vídeo de uma conversa com Arruda, recibos e até notas fiscais de supostas despesas eleitorais bancadas ilegalmente. O material seguiu para a perícia e foi anexado ao inquérito da PF na Operação Caixa de Pandora, deflagrada na última sexta-feira.
O ex-secretário confessou que o governador já previa uma traição dentro do próprio grupo e planejou se defender da acusação de crime eleitoral e, assim, conseguiu recibos frios no valor de R$ 90 mil na tentativa de justificar a origem do suposto dinheiro de caixa dois recebido como doação para a compra de panetones e brindes de Natal para creches e asilos. Estes documentos também serão periciados pela PF.
O dinheiro, segundo Barbosa, tem origem em desvios de contratos assinados por empresas com a estatal do governo responsável pelo planejamento econômico, a Codeplan. Na época da campanha, Barbosa presidia a estatal. Junto ao Tribunal Regional Eleitoral de Brasília, Arruda declarou um gasto de R$ 8 milhões na campanha, uma sétima parte do que teria arrecadado com o caixa dois.
Mesmo após as eleições, segundo Barbosa, o esquema denunciado seguiu como um 'propinoduto' para os deputados da base aliada, em troca de apoio político. O informante da PF acrescenta que o esquema se transformou em uma versão "muito piorada" daquela que vigorou durante as eleições para ser ação "extorsiva" contra empresas.
Segundo um informe da PF, R$ 600 mil em propina do propinoduto, pagos por empresas fornecedoras do governo, já foram rastreados. O dinheiro, segundo Barbosa, foi destinado ao governador, ao vice Paulo Octávio (DEM), a secretários e deputados. No esquema atual, Barbosa diz que as empresas da área de informática Infoeducacional, Vertax, Adler e Linknet, contratadas pelo governo do DF, teriam repassado a ele R$ 400 mil.