Uns se deslumbram com a fama. Outros se matam, se drogam. Tem aqueles que viram medalhões e envelhecem com os seus amores mais jovens, jóias, cães e gatos. E há os que mandam o show business às favas, deixam a carreira e vão fazer outras coisas na vida. A cantora irlandesa Sinéad O'Connor, 37, pertence a essa última categoria.
Ela resolveu se aposentar e conciliar a criação dos seus dois filhos com o estudo da Teologia: "Tenho talentos em outras áreas fora do show biz e quero explorá-los para satisfazer a minha alma. Além de ser professora de religião, meus planos incluem cantar em cultos. Menos cantar em casamentos, pois não acredito neles".
Dona de uma das vozes mais pungentes e angustiadas do pop, Sinéad alterou a imagem da mulher no rock e abriu as portas para artistas como Courtney Love e Alanis Morissette. No auge do sucesso, entre 1987 (The Lion And the Cobra) e 1990 (I Do Not Want What I Haven't Got), a cantora, que raspava a cabeça, colecionou posições fortes.
O mundo lhe entregava fãs, prêmios e milhões de dólares - e Sinéad usava a superexposição na mídia para desmitificar a idolatria, defender as ações terroristas do IRA e rasgar uma foto de João Paulo II em um dos programas de maior audiência da televisão americana, o Saturday Night Live, tornando-se persona non grata nos EUA.
A mistura de atitude e (algum) desequilíbrio custou caro à cantora. Inclusive, comprometeu a qualidade dos dois álbuns lançados nos anos 90, Am I Not Your Girl? (1992) e Universal Mother (1994). Na era 2000 ela gravou o fraco Faith And Courage e Sean-Nós Nua (2002), um interessante resgate de canções que ouviu na infância.
Mas, sabe aquela história de quem guarda o melhor de si para o final? Cantando melhor do que nunca (chega a comover), Sinéad se despede do mercado fonográfico com um esplêndido álbum duplo de nome quilométrico: She Who Wells in The Secret Place of the Most Hight Shall Abide Under the Shadow of the Almight (Sum Records).
O disco 1 reúne canções inéditas, lados B, covers do Abba (Chiquitita), B-52's (Ain't it a Shane), Boudleaux Bryant (Love Hurts), Dan Penn (Do Right Woman, Do Right Man) e colaborações com os grupos britânicos Asian Dub Fondation (1000 Mirrors) e Massive Attack (Love is Ours e It's All Good). Ao todo, 19 faixas. O disco 2 é a gravação do concerto de lançamento de Sean-Nós Nua em Dublin, em 2002. A voz singular da irmã Sinéad sobrevoa raízes celtas, reggae e uma fusão de música dançante moderna e rock. O ponto alto é a versão do sucesso Nothing Compares 2 U, de Prince. Em 1990, a cantora dominou o planeta com a gravação dessa balada.