"Estamos indignados com esse tipo de demissão em massa, sendo que a indústria automobilística está em pleno desenvolvimento em nosso país". A afirmação foi do presidente em exercício da Confederação Geral dos Trabalhadores (CGT), Canindé Pegado, em relação à demissão anunciada pela Volkswagen de 1,8 mil funcionários a partir de 21 de novembro. Segundo a Anfavea (Associação Nacional de Fabricantes de Veículos Automotores), entre janeiro e julho de 2005 o crescimento na exportação foi de 37,4% em relação ao mesmo período de 2004. Em 2006, os números também são animadores. Tanto produção, como vendas internas e exportações tiveram os melhores resultados acumulados dos últimos anos.
Além de não encontrar relação entre o número de trabalhadores que serão demitidos e o crescimento da indústria automobilística no país, o presidente da CGT acredita que existe uma estratégia eleitoreira por parte da Volks de São Bernardo.
- Pode estar embutido nesta exigência um interesse muito forte do setor: pressionar o governo a reduzir o IPI e outros encargos, aproveitando o período eleitoral. De qualquer forma, a concretização das ameaças de demissões e até o possível fechamento da Volks, colocará o Brasil em descrédito no Exterior, no exato momento em que a indústria nacional desfruta de alta credibilidade no mercado externo - afirmou.
Na manhã desta quarta-feira, a linha de produção da fábrica da Volkswagen em São Bernardo do Campo amanheceu totalmente paralisada. A greve começou no final da tarde desta terça. Segundo o vice-presidente do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, Francisco Duarte Lima, o Alemão, os trabalhadores têm duas assembléias para debater a situação da empresa. Os funcionários da madrugada, que entraram às 22h desta quarta, já haviam aderido à greve, decidida por volta das 16h de terça.
A greve foi definida após a Volks enviar cartas para informar sobre a demissão de 1,8 mil funcionários a partir de 21 de novembro, quando termina o acordo de estabilidade de emprego em vigor com a fábrica. As demissões, por sua vez, ocorreram um dia após o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) informar que suspenderia um empréstimo de R$ 497 milhões para a empresa até que houvesse um acordo com o sindicato.
Segundo Alemão, a diretoria da Volks ainda não procurou o sindicato para negociar. Lima afirmou que os turnos estão sendo trocados normalmente, mas os funcionários permanecem na fábrica sem trabalhar. A fábrica deixará de produzir até 940 veículos por dia, volume diário de veículos produzidos na unidade dos modelos Gol, Saveiro, Polo, Polo Sedan, Kombi e do Fox exportado para a Europa.
Além desses 1,8 mil já informados da demissão, a Volks pretende cortar ao menos mais 1,8 mil funcionários até 2008.
A fábrica de São Bernardo, a maior das cinco da montadora alemã no Brasil, emprega 12,4 mil funcionários, mas só 8 mil estão na produção. Os demais cumprem trabalhos administrativos, área que está concentrada no ABC. Segundo a Volks, se não chegar a um acordo com sindicatos para demitir 3,6 mil funcionários e reduzir direitos trabalhistas dos demais, a empresa terá que fechar a fábrica e dispensar 6,1 mil pessoas. Desde 2000, a unidade de São Bernardo recebeu investimentos de R$ 2 bilhões, mas ainda é considerada pouco competitiva em relação às demais unidades da empresa que, segundo a Associação Nacional de Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea), a VW é a maior produtora de veículos do Brasil, com a produção de 456.391 automóveis, caminhões e ônibus. Trata-se de quase 30% do 1,523 milhão de veículos produzidos por todas as montadoras brasileiras no mesmo período.