Rio de Janeiro, 08 de Setembro de 2026

Severino: produto do pior das elites do Brasil

Ao discurso neoliberal interessa desqualificar a política, pois ela pode refletir anseios populares. Por isso, a eleição de Severino não foi um acidente. Faz parte do projeto da aliança PFL-PSDB. (Leia Mais)

Sexta, 11 de Março de 2005 às 22:16, por: CdB

Uma das maiores ofensas ao povo brasileiro nos últimos tempos foi dizer que Severino Cavalcanti "é a cara do povo brasileiro". Severino é resultado do conluio do pior das elites do país, da mesma forma que Fernando Collor de Mello e Paulo Cesar Farias.

Os tucanos passeavam alegremente na madrugada da eleição de Severino, proclamando abertamente seu apoio a ele - Yeda Crusius, por exemplo, se dava por satisfeita porque a aliança PSDB-PFL colocou um "primeiro ministro" na figura do vice, Tomas Nonô.

Enquanto isso, Severino barganhava votos, com abordagens diretas, como a que relata Henrique Fontana, deputado do PT do Rio Grande do Sul, a quem ele tentou convencer, dizendo: "Henrique, você tem que pensar primeiro em você" (sic), referindo-se, sem disfarces, à promessa de aumento dos salários para os parlamentares.

A imprensa trabalhou para desgastar a candidatura de Luis Eduardo Greenhalg - seja retomando velhas acusações ultrapassadas, como fez a Folha de S. Paulo, seja tentando criminalizar os vínculos políticos de LEG. A direita ficou feliz com o seu trabalho: derrotou o governo e o PT e, ao mesmo tempo, tem um Parlamento desmoralizado.

O discurso neoliberal precisa desqualificar a política, que pode refletir anseios populares. Precisam que a lógica econômica - a do capital especulativo - se imponha friamente, sem incertezas. Podemos nos preparar para uma capa da Veja, acabando de desmoralizar Severino, sugerindo que ele expressa o Parlamento, a política, os pobres, os imigrantes. Quando Severino foi o pobre, o nordestino, cooptado pela extrema direita - a favor do golpe, da ditadura, contra o aborto, contra a pesquisa das células tronco, contra os direitos dos homossexuais.

O quer a direita, o que quer o capital especulativo é desmoralizar e debilitar ainda mais o Congresso, para seguir fazendo passando seus projetos. Se o Parlamento está representado por alguém que protege cachaceiros - e se ele reflete o povo brasileiro - caberia proteger o "Banco Central", tornando-se formalmente independente, para que pessoas de bem - ou de bens - que bebem whisky e protegem grandes especuladores tomem conta da moeda, da taxas de juros e continuem cortando os recursos das políticas sociais, para que não se proteja a cachaceiros, em detrimento da base monetária. Severino é funcional a esses projetos do grande capital financeiro.

A eleição de Severino não foi um acidente. Faz parte do projeto sucessório da aliança PFL-PSDB, comandada por FHC, por Tasso Jereissati, por Jorge Bornhausen - isto é, pela direita brasileira. Não nos esqueçamos que os três estavam também a favor de Collor - FHC apoiou a entrada do PSDB no governo Collor, vetada por Covas.

Severino é a cara do pobre e do nordestino que os ricos e a direita adoram. Queriam que o povo brasileiro fosse corrupto, escrachado, reacionário, como Severino. É que não conhecem a cara do povo brasileiro, nunca foram a um assentamento dos trabalhadores sem terra, nunca foram a um CEU, nunca saíram da Avenida Paulista e dos Jardins.

Se assustam com a cara do povo, por isso ficam longe dele, tramando seus golpes de poder com Kissinger e com os banqueiros. Enquanto isso o povo brasileiro tece, em surdina, às vezes com gritos, sua alternativa, de um Brasil em que essa gente não tenha lugar, em que os pobres não sejam convidados a trabalhar para os ricos e a aplaudir suas telenovelas, mas em que o povo brasileiro escreva e faça sua própria história.

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