Rio de Janeiro, 27 de Outubro de 2026

Sete de setembro na América Latina

Segunda, 05 de Setembro de 2011 às 09:35, por: CdB

Enquanto neste 07 de setembro, o Brasil comemora odia da pátria, as comunidades cristãs latino-americanas recordam que, nesta mesmadata, em 1968, encerrou-se, em Medellín, na Colômbia, a 2ª Conferência geral doepiscopado católico latino-americano. Foi esta reunião que oficializou ocompromisso social e político da Igreja Católica com a completa independência elibertação de nossos povos. A partir da conferência de Medellín, pastores eteólogos, inclusive os papas têm se referido à opção pelos pobres como umadecisão evangélica que é da própria natureza da Igreja ser. No discursoinaugural da Conferência dos bispos em Aparecida, Bento XVI afirmou: "A opçãopreferencial pelos pobres está implícita na fé cristã naquele Deus que se fezpobre por nós”. João Paulo II também falou da opção pelos pobres em suas encíclicassociais. A razão de ser de uma comunidade cristã é ser testemunha do reino deDeus no mundo. Concretamente, isso significa servir à humanidade continuando amissão de Jesus que na sinagoga de Nazaré disse ter vindo ao mundo para curaras pessoas doentes e libertar as oprimidas (Lc 4, 16- 21).

Há 50 anos, o Concílio Vaticano II reuniu todos osbispos católicos em Roma e definiu a Igreja como sinal e sacramento da salvaçãoque Deus quer dar ao mundo inteiro e atinge o ser humano em sua integridade. Em1968, a conferência de Medellín aplicou o Concílio à América Latina e, pelaprópria realidade do nosso continente, decidiu aprofundar este assunto. Osaudoso padre José Comblin afirmava: "Medellín representou o nascimento de umaIgreja propriamente latino-americana, com rosto de nossos povos”. O tema geralda conferência foi a missão da Igreja na transformação da América Latina. Em1968, eclodiam manifestações da juventude em países da Europa e movimentosrevolucionários desejavam mudar nosso continente. Era uma época detransformações sociais e políticas que encontravam resistências e repressões porparte do império norte-americano. Este financiava e apoiava ditaduras militaresque, pouco a pouco, se instalavam em nossos países e reprimiam toda tentativade libertação do povo. Neste contexto, o fato dos bispos terem assumido umapostura crítica com relação às estruturas políticas do continente foi muitoimportante. O próprio papa Paulo VI que inaugurou aquele encontro deixou claro:"o desenvolvimento é o novo nome da paz”.E ele insistiu que este desenvolvimento só merece este nome se forbaseado na justiça e na solidariedade humana. Os bispos denunciaram a realidadesocial e política da maioria de nossos países como "injustiça estrutural” e tiveramcoragem de propor que a Igreja se colocasse no mundo como sinal e instrumentode libertação integral da humanidade e de cada ser humano.

É claro que na conferência de Medellín, os bispospuderam aprofundar teologicamente e propor pastoralmente este jeito novo de serda Igreja, porque isso já era uma experiência concreta nas comunidadeseclesiais de base. Desde o começo dos anos 60, muitas comunidades e gruposcristãos, nas periferias urbanas e no campo, começaram a estudar a Bíblia e aligar a Palavra de Deus à sua vida concreta. Em consequência disso, muitoscristãos, jovens e menos jovens, em nome da fé, participaram de movimentos elutas pela justiça, inclusive muitos arriscaram a vida neste caminho.

Neste ano, festejamos o Sete de Setembro, com aconsciência de que a verdadeira independência social, política e econômica deum país é um processo que precisa sempre ser completado e aperfeiçoado até odia em que todos os cidadãos tenham o necessário para viver, contem com umtrabalho digno e remunerado de forma justa e possam usufruir um merecido lazerna beleza da terra que Deus lhes deu.

Hoje, 43 anos depois, as palavras dos bisposlatino-americanos em Medellín devem ressoar em nossas Igrejas para nos recordarque é nossa missão cristã participar desta construção de uma pátriaverdadeiramente libertada e independente. Junto com todos os irmãos e irmãs dahumanidade, devemos lutar pacificamente para que se realize no mundo o projetodivino de paz, justiça e defesa da natureza. Hoje, está mais do que nunca atuala proposta dos bispos latino-americanos de 1968: "Devemos dar à nossa Igreja orosto de uma Igreja verdadeiramente missionária e pascal. Seja ela uma Igrejapobre e despojada do poder, comprometida com a libertação de toda a humanidadee de cada ser humano por inteiro” (Medellín, doc 5, n. 15).

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