A IV Frota norte-americana detém poder nuclear, com um porta-aviões e 11 navios
Embora não seja possível descartar, nem confirmar, a história de que a IV Frota dos Estados Unidos estivesse de prontidão, na costa brasileira, com os canhões apontados para o Rio de Janeiro, o professor brasileiro José Niemeyer, coordenador da graduação em Relações Internacionais do Instituto Brasileiro de Mercado de Capitais (Ibmec-Rio), em entrevista à agência russa de notícias Voz da Rússia (VdR), afirmou nesta terça-feira que tal possibilidade seria muito remota. Mesmo se houvesse a tal 'revolução comunista' que os setores da extrema direita usaram como argumento para justificar a queda do governo eleito, democraticamente, de João Goulart, uma ação armada dos EUA significariam, na época, uma resposta imediata por parte da antiga União Soviética. Sem contar a união dos brasileiros contra a invasão de uma força internacional ao território nacional.
– Eu não acredito numa invasão do Brasil pelos EUA. Primeiro porque é um país muito difícil de ser invadido, do ponto de vista geoestratégico.
Segundo Niemeyer, "essa questão da ação militar norte-americana durante o governo João Goulart é algo que muita gente discute. Inclusive, pessoas aqui do Rio de Janeiro gostam de comentar que os navios estavam aqui na costa, alguns navios de guerra dos Estados Unidos". Ele acredita que "os navios na costa foram muito mais uma demonstração de força e de tentativa de neutralizar alguma agenda mais radical de João Goulart".
– Eu particularmente, por mais que eu respeite muito o jornalista (Elio) Gaspari (responsável por divulgar a gravação de Jonh F. Kennedy, na qual o presidente norte-americano cogita intervir militarmente no Brasil), não acredito numa invasão do Brasil pelos Estados Unidos. Primeiro porque é um país muito difícil de ser invadido, do ponto de vista geoestratégico. Para invadir um país, é preciso tomá-lo. É muito difícil. Não é simples. Só se houvesse um ataque maciço da Força Aérea norte-americana. Mas acho isso muito difícil, muito complicado administrar um ataque naquela época das fronteiras ideológicas porque a União Soviética se posicionaria também. Eu acredito numa certa postura dissuasória por parte do governo dos EUA com relação a uma agenda de reformas mais radicais do governo brasileiro – afirmou.
Na análise do diretor do Ibmec, "se isso foi mencionado na Casa Branca, se foi gravado, como parece que o Gaspari coloca, sabe-se que, numa reunião de gabinete, as coisas são discutidas num plano muitas vezes fantasioso, ou baseadas em um cenário prospectivo. Líderes quando falam são humanos falando. Ainda mais dentro de um gabinete fechado, num momento de muita apreensão durante a Guerra Fria".
– Mas isso tudo também mostra outra coisa. Mostra como houve um apoio político inconteste do governo norte-americano para que ocorresse o Golpe de 1964. Disso eu não tenho dúvida. Eu acho que o material é importante para mostrar isso, as influências na Operação Condor, influências em relação aos civis que apoiaram a ditadura na hora de um processo criminoso de tortura e perseguição, o auxílio da CIA nos processos de investigação e nos processos organizados nos porões da ditadura... Agora, uma ação militar norte-americana no Brasil acho muito forte – acredita.
Leia, adiante, outros trechos da entrevista do professor José Niemeyer à VdR:– Historicamente, nós temos que recuar alguns poucos anos e lembrar que tudo começa com a revolução em Cuba em 1959. E, a partir daí, começa um clima de apreensão nos EUA de que o movimento em Cuba pudesse se espalhar por outros países da América Central e do Sul...
– É o período das fronteiras ideológicas. Havia esse receio. Muita gente acha que, em 1964, a posição da classe média principalmente paulista e carioca foi tomada com receio de que houvesse um transbordamento do conflito ideológico presente em alguns países da América Central e do Sul, contaminando o Brasil. Eu ainda preciso pensar um pouco mais sobre isso. Porque o Brasil não tem na sua matriz fundadora, como civilização, como sociedade, meios que facilitassem a instauração do comunismo aqui. Isso não tem muito a ver com a nossa formação, na minha opinião. É um país muito grande, de muitas diferenças regionais... Então, para criar um movimento comunista de base, que conseguisse ter o apoio dos muitos grupos que formam a sociedade brasileira, acho que seria difícil. Mas havia esse receio por parte da classe média e dos militares, setores mais conservadores, desse transbordamento militar dos conflitos. Aí, pode ser que na Casa Branca também houvesse esse receio.
– O jornalista Elio Gaspari situa essa reunião do presidente Kennedy com o embaixador Lincoln Gordon em 1963. Porém, biógrafos de Gordon dizem que, em julho de 1962, ele já havia cogitado intervir pelo menos nas eleições do Brasil para impedir que João Goulart fosse eleito. Se bem que o João Goulart foi o sucessor natural de Jânio Quadros...
– Eu também acho difícil uma intervenção no processo eleitoral no Brasil. Creio que a Agência Central de Inteligência (CIA, na sigla em inglês) podia ter feito alguns movimentos de contra-inteligência em relação a alguns candidatos a presidente, incluindo o João Goulart. Mas não uma intervenção no processo eleitoral. Eu não vejo os Estados Unidos, com relação a um país do porte estratégico do Brasil, tendo essa postura tão radical. Pode ser que eles tenham falado sobre isso em conversa de gabinete. Mas em conversa de gabinete, como eu acabei de dizer aqui, vale tudo. São cenários prospectivos. O Pentágono (Departamento de Defesa dos EUA) raciocina muito assim. O planejamento é para cenários de A a Z. Inclusive, uma das hipóteses hoje do Pentágono, desde a Guerra Fria, é a de uma guerra interplanetária. Se até nesse nível de ameaça eles estão pensando, eles poderiam pensar, sim, como cenário alternativo, numa invasão militar no Brasil.
– Nós também devemos lembrar, professor, que, nos anos 1960, os Estados Unidos haviam idealizado a Aliança para o Progresso, cujo objetivo declarado era 'contribuir para o desenvolvimento dos países'. E o objetivo encoberto era impedir que houvesse o que o senhor chamou ainda há pouco de contaminação ideológica...
– Exatamente. Com isso eles até estavam preocupados, mas tinham outros elementos para promover essa não infecção ideológica, via serviço secreto, com apoio dos grupos da classe média, com apoio principalmente do empresariado paulista e carioca (que apoiaram 64), aí eles conseguiam. O CCC, o Comando de Caça aos Comunistas, muitos dizem, recebia também recursos de multinacionais. Porque essas empresas eram incentivadas a vir para o Brasil. Para isso, tinham que barrar a valorização do salário mínimo. Então, havia todo um arrocho salarial com relação ao sindicato e ao operariado para poder remunerar melhor o capital internacional. Isso eles fizeram. Havia lobby pra isso. Mas uma ação militar é algo muito longe dessa realidade.
– A impressão do professor José Niemeyer é a de que há um grande exagero em torno dessas teorias. Se elas chegaram a ser cogitadas, ficaram apenas no plano das hipóteses.
– Ficaram como hipóteses de cenários prospectivos, mas num campo pouco realista.
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