Rio de Janeiro, 20 de Agosto de 2026

Sergipe, desenvolvimento e contradições

Quinta, 21 de Abril de 2011 às 09:05, por: CdB

Menor estado da federação apresenta índices de desenvolvimento positivos, mas ainda tem estatísticas questionáveis

 

21/04/2011

 

Charles Souto

de Aracaju

 

Os recentes indicativos econômicos e sociais de Sergipe parecem confirmar o êxito dos investimentos do Programa Sergipano de Desenvolvimento Industrial (PSDI), que tem por objetivo incentivar e estimular o desenvolvimento sócio-econômico estadual.

Menor estado da federação, Sergipe conta com o melhor IDH e o melhor índice de Desenvolvimento Socioeconômico da região Nordeste. A taxa de mortalidade infantil caiu de 21,13 por mil nascidos vivos em 2006, para 14,94 em 2010.

Nos últimos três anos, segundo o Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged) do Ministério do Trabalho, foram criados 54.778 empregos com carteira de trabalho na economia sergipana. Nesse período, foram implantadas 110 novas indústrias no estado. Além disso, seu PIB per capita, que representa a riqueza média gerada no ano por pessoa residente no Estado, somou R$ 9.778,96 em 2008. Com isso, Sergipe manteve o 1º lugar no ranking do Nordeste, seguido pelos estados da Bahia e de Pernambuco.

Esses resultados excepcionais não impedem, entretanto, a importação de trabalho infantil alagoano para os canaviais sergipanos, como comprova a presença de três menores dentre as vítimas de um acidente em Capela, no dia 27 de março, que resultou na morte de um lavrador de 17 anos (ver matéria abaixo).

Portanto, antes de afirmar que Sergipe seja um novo Eldorado, seria prudente ir mais além dos dados e estatísticas e buscar na recente conformação sócio-econômica do estado as causas – e fissuras – desse modelo de desenvolvimento.

 

Pilares da dependência

Ao analisar a economia sergipana, Ricardo Lacerda revela que a “participação tão expressiva do setor industrial na riqueza gerada em Sergipe deve-se, essencialmente, à presença de dois subsetores que têm peso muito maior no Estado do que na média do Brasil e, em particular, do que nos demais estados nordestinos: a indústria extrativa mineral, que conta com a produção de petróleo e gás e a extração de sais de potássio, e a produção e distribuição de energia, em que se inclui a usina hidrelétrica de Xingó.”

Desde a entrada em operação, em 1963, do campo terrestre de Carmópolis, a exploração do petróleo tem sido um dos principais vetores de desenvolvimento da economia sergipana. De acordo com Lacerda, “em 2007, último ano com dados disponíveis para as contas regionais, a indústria extrativa mineral, que abrange a atividade de exploração de petróleo e gás, respondia por 6,22 % do PIB sergipano. O peso da cadeia de petróleo e gás ultrapassa muito essa porcentagem, considerando-se os efeitos multiplicadores da massa de salário paga e dos contratos de fornecimentos de bens e serviços e dos tributos e royalties.”

Sobre a Hidroelétrica de Xingó, instalada na divisa com Alagoas, o economista sergipano lembra que “na divisão das atividades, Alagoas ficou com as moradias, mas as turbinas ficaram do lado de cá. Isso quer dizer que toda energia de Xingó é contabilizada pelo lado de Sergipe. Então, não só os royalties são nossos, como a atribuição da riqueza gerada no PIB, que é expressiva, conta para Sergipe”.

 

Estado presente

Fechando esse quadro, some-se a atuação do setor público na economia sergipana, que em 2008 respondia por 24,5% da riqueza gerada no estado. Ou seja, cerca de um em cada quatro reais gerados na economia sergipana são originados no setor público, contando com os gastos dos governos federal, estadual e dos municípios e as aposentadorias, pensões e outras transferências de recursos.

Revela-se, dessa forma, uma economia essencialmente dependente da atuação estatal. Pode-se argumentar que Sergipe possui maior taxa de urbanização, menor faixa de região semi-árida e menor concentração relativa de terra da região, mas o fato preponderante para que o estado apresente indicadores sociais e econômicos significativamente superiores à maioria dos estados da região é a forte atuação do Estado – seja diretamente por seus entes de administração pública, seja indiretamente através do setor produtivo estatal (Petrobras e Xingó).

 

As estatísticas mentem

“Eu não posso dizer que o estado de Sergipe, por ter o melhor IDH do Nordeste, é mais desenvolvido que Bahia, Pernambuco e Ceará”, assegura Luiz Moura, economista do Dieese (Departamento Intersindical de Estatísticas e Estudos Sócio-Econômicos). Para ele, é preciso ter cuidado com algumas distorções estatísticas que esses indicadores podem causar.

“Sergipe tem os melhores indicadores sociais do nordeste por um motivo só: o peso da capital Aracaju dentro do estado. Por se tratar de um território pequeno em que a capital representa 38% da economia sergipana, os indicadores positivos de Aracaju puxam os dos outros municípios. Se você tira a capital, a maioria dos municípios sergipanos fica na vala comum de qualquer indicador nordestino. Basta lembrar que 20 dos 75 municípios de Sergipe estão entre os piores IDHs da região”, aponta Moura.

Para reforçar seu ponto de vista, e demonstrar a fragilidade desses indicadores, Moura cita como exemplo o município de Canindé de São Francisco. Por ser a sede da Hidroelétrica de Xingó, Canindé possui o maior PIB do interior do estado devido aos royalties que recebe, “no entanto é um município extremamente complicado do ponto de vista de serviços e políticas públicas”, alerta o economista do Dieese. O PIB per capita de Canindé é o maior de Sergipe, quatro vezes o de Aracaju, mas 42% de seus habitantes ainda são analfabetos.

Não se pode negar que Sergipe possui os melhores índices de desenvolvimento social do Nordeste, mas certas distorções existentes nesses indicadores podem camuflar a permanência, e até mesmo o fortalecimento, da desigualdade social no estado.

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