O empresário e ex-deputado federal por Minas Sérgio Naya foi preso por agentes da Polícia Federal na madrugada desta segunda-feira no aeroporto Salgado Filho, em Porto Alegre, quando tentava sair do país em direção ao Uruguai. Naya, que está proibido de deixar o país, desembarcou de um vôo doméstico e tentava embarcar em outro para Montevidéu. Sérgio Naya é o dono da Construtora Sersan, que edificou o Palace II, prédio que desabou em 1998 no Rio, matando oito pessoas.
Em fevereiro deste ano, o caso Palace II voltou à tona na imprensa com a decisão do juiz Alexander Macedo, então na 4ª Vara Empresarial, de liberar bens bloqueados do empresário para vendas. O caso revoltou os ex-moradores do Palace II que ainda lutam na Justiça por indenizações - alguns deles moram com suas famílias em um hotel na Zona Sul do Rio.
O Ministério Público investiga o juiz. Macedo é acusado de ter autorizado a venda de bens sem consultar o MP. O Conselho de Magistratura do Tribunal de Justiça investiga o caso. O juiz alega que apenas três imóveis de Naya teriam sido liberados para que fossem vendidos e o dinheiro, destinado às vítimas. O MP informa ter opinado apenas sobre uma venda.
Condenação
A 5ª Câmara Criminal do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro condenou o ex-deputado Sérgio Naya a dois anos e oito meses de detenção, em regime aberto, pelo desabamento do edifício Palace II. O engenheiro Sérgio Murilo Domingues, responsável pela obra, teve a mesma condenação.
As penas foram substituídas por prestação de serviços à comunidade e pagamento de multa a cinco entidades públicas com destinação social. Naya terá de pagar 360 salários mínimos (máximo previsto no Código Penal) e Domingues, 200 salários. Por dois votos a um, a 5ª Câmara aceitou parcialmente o recurso do Ministério Público contra a absolvição de Naya e Domingues pela 33ª Vara Criminal em maio de 2003.
O homem que caiu do céu - Por Leandro Mazzini*
Em meados de 80 era de praxe aos domingos dois helicópteros modelo Esquilo sobrevoarem, lado a lado e com espetáculo de manobras, cidades da Zona da Mata mineira. Desciam vez em quando em campos de várzea, interrompendo as peladas; deles saíam homens que distribuíam doces e brinquedos.
Em outros casos, sem aterrissagem, os lançavam a dez metros do chão, provocavam uma correria eufórica para todos os lados, crianças queriam ver os aparelhos inéditos que rasgavam os céus. Souberam depois que aquelas duas aves mecânicas que apareciam esporadicamente nos fins de semana eram do deputado Sérgio Naya - e por isso ele ganhou entre os peladeiros a alcunha de o homem que vinha do céu.
Os helicópteros sumiram, junto com eles os espetáculos e os brinquedos, as crianças cresceram mas a pelada continua. Naya, o todo-poderoso que descia com seus anjos mecânicos atrás de votos - quando mostrava as caras - perdeu a graça e o respeito deles.
Descobririam enfim, aquelas crianças já grandes, que ele construía castelos de areia. Um deles desabou - e com o prédio a sua reputação. Então Naya, para eles, tornou-se o homem que caiu do céu. Um céu que ele imaginava ser seu.
* Leandro Mazzini é jornalista, repórter do Correio do Brasil e natural de Muriaé (MG), um dos redutos eleitorais do ex-deputado em questão.