Por Wellington Amâncio 18/05/2011 às 18:29
Fenomenologia, Ontologia
Ser e Aparecer
O ser não é manifesto, já que não aparece para nós; o que aparece é fraco, já que não consegue ser. Górgias, o sofista.
Atualmente, Ser e Aparecer são iguais como manifestação - diferentemente do que Górgias imaginava ? porque um torna-se o outro no mastro do poder de representar e apresentar disponível nas múltiplas inversões pós-modernas. Há tal pressuposto que afirma que o Ser perdera uma parcela do seu valor para que possa aparecer adquirindo os valores característicos das coisas que aparecem ? porque são esses valores, por assim dizer, que o fazem aparecer nesta relação, diminuindo-se para equiparar-se as aparências do fenômeno, onde no campo da causalidade ele pode estar ou se alocar para qualquer instancia desse processo: isso é possível quando em todo momento abdica de ser para aparecer; diz-se que a razão de ser do que Aparece é existir como fenômeno para o Ser, embora essa razão seja um ponto de vista da perspectiva do Ser, isto é, o Ser é posto ou se impões como protagonista da observação e da enunciação do objeto porque o representa (e nisso mesmo legitima sua chancela de representação das coisas), mas enquanto aparece (deixando de ser ?quem? para ser ?que?); e ainda, a razão ontológica do Ser é dar sentido ao que lhe aparece porque o fenômeno é inevitavelmente uma projeção do Ser, tornando-o inteligível para si, a partir dos conceitos de si, tornando-o caminhos em direção ao mundo, tornando-o signos de representação de si e do mundo e posteriormente instrumental da sua própria interdependência com outros seres e objetos. O Ser se projeta como fenômeno e logo aparece; e o que Aparece (todos os seres tem o poder de aparecer), recebe ou conquista sentidos, e quando busca um sentido para si aparece em função de ser visto, nisso, torna-se também Ser; quando lhe é dado sentidos em função de um querer exterior, torna-se Objeto.
O ponto de vista daquele que observa o que aparece é o ponto de vista do Ser, em vista de que tudo aquilo que aparece é objeto. O Ser, de forma condicional ou incondicional pode tornar-se um objeto que aparece, mas o que o Ser torna ou descobre como objeto, não necessariamente tem o poder de Ser, apenas de aparecer segundo as condições do Ser. O Ser é sujeito quando o objeto do seu conhecimento é passível da sua observação, embora quando o fenômeno não se apresente ao ser por vontade e esforço deste, não quer dizer que haja ou não uma vontade no objeto. Ambos, Ser e Aparecer, são em dado momento fenômenos ativos. O Ser se deixa tornar objeto passível de certo contexto de sobrevivência para manter-se enquanto fenômeno, como uma espécie de Ulisses que, descobrindo na caverna platônica um prazer, resolve abdicar à claridade exterior retornando de livre escolha para seu interior, ou em última instância, o Ser torna-se objeto por vias de uma falsa compreensão de si na situação da esperança de uma auto-preservação equivocada e batizada nos Sentidos (os Sentidos sim, antagonizam-se com o Fenômeno), ou ainda pela ausência de conhecimento, porque desde sempre na caverna, tenta entender a perspectiva daqueles que adentra novamente neste subterrâneo mesmo que sejam eles os sujeitos que retornam para conscientizá-lo da salutar claridade exterior, ou para reforçar-lhe a perspectiva cavernícola como citei acima.
Somente o Ser que quer aparecer o faz de forma ativa - e aqui torna-se mais Ente do que aparente; o objeto que aparece é susceptível de observação pela vontade daquele que o observa e talvez apareça por força do Ser, mas é somente o Ser que enquanto fenômeno escolhe sua condição no espectro do aparecer. Essa relação ocorre no mundo das aparências ? onde há uma forte inter-relação entre o Ser e o Aparecer, que não é nem dialética, nem dicotômica, ou antagônica, simplesmente é um dos fenômenos de uma causalidade já alienada (no sentido grego do termo) pelo pensamento nas instâncias, filosófica, político ou existencial na sociedade, e nas instâncias, meta logoi, físicas, químicas e matemáticas na natureza. Abre-se aqui uma grande possibilidade: a de se construir verdades sobe os alicerces da aparência como algo que aparece para um fim específico: o de gerar novos fenômenos, controlados ou controláveis pelo Ser; logo a verdade da aparência gesta o Progresso, a Razão, a Beleza, o Bem, a Moral e assim por diante - e a tradição é seu arcabouço, mas nestes termos perde-se a razão de existir.
Enfim, nas instâncias do Fenômeno, co-existe com o Ser e o Aparecer, um mundo de aparência ? é lá onde o Ser é gestado, onde busca subsídios para formular, a priori, das coisas que ?parecem?, um sentido para si e para o objeto do seu conhecimento bem como seu controle. Nessa intensa relação, poderemos nos surpreender com seus protagonistas.
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