Um aspirante à polícia foi seqüestrado na última terça-feira na província argentina de San Luis e libertado horas depois, em um estranho caso em que os seqüestradores exigiram como 'resgate' a renúncia de Alberto Rodríguez Saá, governador desse convulsionado distrito do centro do país.
Os seqüestradores de Cristian Gutiérrez, de 25 anos, que cursa o terceiro ano da escola policial da província, também reclamaram a demissão do chefe e dos integrantes do estado maior dessa força de segurança local.
O jovem aspirante à polícia foi libertado na noite de terça-feira em um bairro da periferia da cidade de San Luis, capital da província, e se dirigiu à casa de um de seus avôs, de onde foi trasladado aos tribunais para depor ante o promotor encarregado pelo caso.
O seqüestro e a particular exigência dos seqüestradores foram divulgadas justamente quando San Luis atravessa uma grave crise política e social por causa dos protestos da população contra a família Rodríguez Saá, que há duas décadas rege os destinos da província.
Adolfo Rodríguez Saá governou essa província desde o retorno da democracia, em 1983, até o final de 2001, quando assumiu por uma semana a presidência provisória do país em substituição de Fernando de la Rúa.
Alberto Rodríguez Saá foi, durante esses anos, senador nacional por San Luis e, em 2003, foi eleito governador do distrito.
Seu irmão passou a ocupar uma cadeira na Câmara dos Deputados.
Os seqüestros com fins de extorsão estão em pleno auge na Argentina há dois anos, mas este tipo de delitos não é freqüente em San Luis e os investigadores atribuem a captura de Gutiérrez a questões políticas.
No meio dos generalizados protestos contra as autoridades do distrito, na última semana, parte da polícia local se aquartelou e desde então permanece em estado de assembléia permanente em demanda de melhoras de salários.
A Multisectorial de San Luis, que reúne comerciantes, trabalhadores e laicos católicos da província, cumpria hoje uma nova jornada de greve geral e esta tarde voltou a se mobilizar para exigir a renúncia do governador.
Na última quinta-feira, uma manifestação de rua dos opositores ao governador de San Luis coincidiu com outra organizada pelos beneficiários de um plano de assistência social que defendem a gestão de Rodríguez Saá. Tudo isso terminou com sérios incidentes registrados entre ambos os setores.
Nesse dia, a oposição realizou uma concentração na qual reclamou ao Governo central que disponha a intervenção federal de San Luis, enquanto o governante assegurou que não renunciará seu cargo.
A convulsão no distrito, que tem 368.000 habitantes, aumentou desde que os docentes iniciaram uma greve por tempo indeterminado ante a tentativa do governo de modificar o estatuto trabalhista do setor.
Os Rodríguez Saá são acusados de exercer o poder de maneira quase feudal. Eles também ganharam a antipatia dos católicos quando, há três meses, tiraram as congregações religiosas da direção de residências para crianças e jovens em risco.
Seqüestradores querem saída de governador argentino
Terça, 11 de Maio de 2004 às 21:39, por: CdB