Rio de Janeiro, 03 de Maio de 2026

Separação entre Igreja e Estado vira tema de campanha na França

Segunda, 24 de Outubro de 2005 às 11:40, por: CdB

A separação entre Igreja e Estado está despontando como uma das principais questões da próxima campanha eleitoral francesa, num momento em que políticos rivais começam a disputar os votos da grande comunidade muçulmana do país.

Nicolas Sarkozy, o ambicioso ministro do Interior, pré-candidato para 2007, jogou lenha no debate na semana passada, ao nomear uma comissão para estudar possíveis mudanças na lei que divide as esferas temporal e espiritual.

O presidente Jacques Chirac e o primeiro-ministro Dominique de Villepin reagiram no fim de semana, reafirmando seu apoio à centenária lei que impõe o caráter laico ao Estado. Eles disseram que as mudanças "não estão na agenda".

"Qualquer revisão deve respeitar essa lei rigidamente", disse Villepin, rival de Sarkozy na corrida presidencial.

A lei de 1905 tem amplo apoio, a ponto de muitos franceses considerarem a neutralidade religiosa do Estado como um pilar da sua democracia.

Mas ela foi aprovada antes que os muçulmanos começassem a emigrar em massa para a França, nas últimas décadas. Embora o dinheiro público subsidie de grandes empresas e pequenos clubes na França, a lei proíbe qualquer apoio público direto para a construção de templos, por exemplo.

"Este é um problema de estratégia eleitoral, confrontando um eleitorado contra outro", disse Marcel Gauchet, filósofo especializado no papel da religião.

"Deve-se segmentar o eleitorado por categorias, como fazem os norte-americanos, ou não? É um verdadeiro debate entre os políticos quanto à melhor forma de realizar uma campanha presidencial", disse ele ao jornal Libération.

Enquanto Sarkozy dirige claramente sua mensagem aos cinco milhões de muçulmanos da França, nem todos os líderes da comunidade consideram que quebrar o tabu seja a melhor forma de obter subsídios ou de resolver os problemas enfrentados na busca por autorizações para a construção de mesquitas.

A preocupação dos muçulmanos com a pressão para escolher um lado ficou clara em uma nota divulgada na segunda-feira por Dalil Boubakeur, diretor do Conselho Francês da Fé Muçulmana.

Após declarar seu apoio à separação entre Igreja e Estado, ele elogiou Villepin pelo projeto que financia a construção de mesquitas, mas também acenou para Sarkozy ao dizer que "outras respostas podem ser encontradas dentro do marco da lei de 1905".

A Igreja Católica, maior instituição religiosa da França, oficialmente se opõe a qualquer mudança na lei. Os líderes judeus também se manifestaram contra.

A pequena Federação Protestante da França é a única comunidade religiosa tradicional do país a defender a mudança, em parte porque o contingente cada vez maior de evangélicos também enfrenta dificuldades para construir seus templos.

 

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