Senadores saem em defesa de Dilma contra 'chantagem' de aliados Durante seis horas, um grupo de senadores alternou-se na tribuna para defender "faxina" de Dilma Rousseff contra corrupção e classificar reação de aliados da presidenta de "chantagem". Debates relembraram momentos históricos em que moralismo domimou agenda nacional e causou prejuízos ao país, como o lacerdismo contra Getúlio Vargas, "vassoura" de Jânio contra JK e udenismo que levou ao golpe militar contra João Goulart.
André Barrocal
BRASÍLIA – Sentindo que partidos aliados do governo estão prestes a agir, dentro do Congresso, contra a presidenta Dilma Rousseff, um grupo de senadores revezou-se na tribuna do plenário, nesta segunda-feira (15/08), para defender o jogo duro presidencial e carimbar de “chantagem” a reação dos descontentes.
O movimento foi planejado pelo senador Pedro Simon (PMDB-RS), que puxou a fila dos discursos. “Presidente [Dilma], apure o que deve ser apurado, não há nenhuma chantagem em cima da senhora para parar o que está fazendo”, afirmou.
Segundo orador, Cristovam Buarque (PDT-DF) pediu a Dilma que “não pare nessa faxina”. Para ele, haveria “apoio ainda maior” do Congresso a uma presidenta que estaria sendo “chantageada” por uma “base de apoio fisiológica”.
Os dois deram o tom de uma sessão que durou seis horas e viu 17 senadores, de oito partidos diferentes, ocuparem a tibuna da Casa, para debater o clima político mais agitado da atual legislatura. Nem sempre com as mesmas motivações e os mesmos argumentos, no entanto.
Para o senador Jorge Viana (PT-SP), por exemplo, Dilma precisa continuar rigorosa, mas nem ela nem o Congresso deveriam render-se ao noticiário. "Nós não podemos ficar esperando para ler as revistas do fim de semana ou o jornal de amanhã", afirmou.
A senadora Ana Amélia (PP-RS) aproveitou para defender a redução do Estado, cortando-se cargos de confiança, algo que ela entende que estaria na origem das indicações políticas. "Cargos são usados para negociar apoio", disse.
A oposição ao governo marcou presença na sessão para voltar a defender a criação de uma CPI da Corrupção, pois quer jogar a presidenta contra aliados e desestabilizar o governo. “É preciso ir além da retórica”, afirmou o líder do PSDB, Álvaro Dias (PR). “Discordo da necessidade de uma CPI”, rebateu o líder do governo, Romero Jucá (PMDB-RR).
Ex-ministro da Previdência no governo Lula, José Pimentel (PT-CE) pediu à oposição que fizesse uma auto”-crítica”. Ele lembrou que, na gestão Fernando Henrique, não era possível abrir CPIs, e o procurador-geral da época, Geraldo Brindeiro, era conhecido como “engavetador-geral”.
Pimentel também destacou considerar importante não perder de vista a dimensão ativa da corrupção, ou seja, os que compram funcionários públicos. “O grave problema hoje da corrupção está vinculado ao financiamento de campanhas”, afirmou, defendendo uma reforma política.
O senador Eduardo Suplicy (PT-SP) concordou que é preciso não esquecer os corruptores. “Muitas vezes as empresas colaboram para perpetuar a corrupção, apelando para pagamentos 'por fora'" disse.
Durante os debates, os parlamentares relembraram momentos políticos turbulentos do passado, em que o moralismo dominou a agenda política brasileira e causou prejuízos ao país.
Foram citados, por exemplo, o lacerdismo contra o ex-presidente Getúlio Vargas, processo que contribuiu para o suicídio dele. A "vassoura" do ex-presidente Jânio Quadros contra o antecessor, Juscelino Kubistheck, que foi cassado pela ditadura e morreu com a pecha de corrupto. E o udenismo que contribui com o golpe militar contra o ex-presidente João Goulart.
Enquanto os senadores discursavam, Dilma reempossava o procurador-geral da República, Roberto Gurgel, em evento no Palácio do Planalto, e aproveitava para mandar dois recados sobre “faxina”.
“Onde ocorrerem malfeitos, onde o crime organizado atuar nós iremos combater com firmeza utilizando todos os instrumentos de investigação e punição de que o governo dispõe”, disse Dilma. “Mas, ao mesmo tempo, tenho o dever de afirmar que farei tudo o que estiver ao meu alcance para coibir abusos, excessos e afrontas à dignidade de qualquer cidadão que venha a ser investigado”.
A segunda frase faz alusão ao uso de algemas contra uma série de pessoas presas pela Polícia Federal numa operação que atingiu o ministério do Turismo. O uso de algemas foi usado por aliados da presidenta – o ministério é controlado pelo PMDB - que não gostaram da ação da PF para condenar a operação.
A presidenta aceitou a crítica e, nos últimos dias, autoridades do governo, como o ministro da Justiça, Luiz Eduardo Cardozo, a quem a PF se subordina, manifetaram-se contra o suposto abuso. Agora foi a vez da presidenta.
Em nota oficial, a Associação dos Delegados da PF defendeu as algemas. “Após ser preso, qualquer criminoso tem como primeira providência tentar desqualificar o trabalho policial. Quando ele não pode fazê-lo pessoalmente, seus amigos ou padrinhos assumem a tarefa em seu lugar”, afirmou a nota. “A providência logo adotada visa desviar o foco das investigações e investir contra o trabalho policial.”