O governo de Saddam Hussein deu petróleo no valor de milhões de dólares a funcionários do governo russo, dentro do programa petróleo-por-comida, da Organização das Nações Unidas (ONU), na tentativa de obter a suspensão das sanções do órgão ao Iraque, concluiu nesta segunda-feira uma comissão do Senado norte-americano.
Os contratos petrolíferos eram "uma compensação pelo apoio", segundo o ex-vice-presidente iraquiano Taha Yasin Ramadan, de acordo com o relatório da Subcomissão Permanente de Investigações do Senado.
O relatório segue a trilha do dinheiro e leva a Alexander Voloshin, ex-chefe de gabinete do atual presidente russo, Vladimir Putin, e de seu antecessor, Boris Yeltsin. Outro beneficiário teria sido o legislador ultranacionalista Vladimir Zhirinovsky, que visitava o Iraque regularmente.
Os investigadores do Senado disseram que não há sinais de que Putin soubesse dos pagamentos.
O objetivo de Saddam era suspender as sanções impostas pela ONU depois que as suas tropas invadiram o Kuweit, em 1990. Pelo programa petróleo-por-comida, que vigorou entre o final de 1996 e 2003, o Iraque poderia vender seu petróleo apenas sob supervisão da ONU e para a compra de bens destinados a aliviar o impacto das sanções sobre a população civil.
A "mesada" para os russos foi revelada pela CIA em outubro. O relatório do Senado contém mais documentos e detalhes. Diz, por exemplo, que Voloshin, então diretor do Conselho Presidencial russo, usava empresas "laranjas" para movimentar o dinheiro.
Mas diplomatas lembram que a Rússia, então a principal aliada do Iraque no Conselho de Segurança da ONU, já tinha restrições às sanções desde 1992, especialmente porque Bagdá devia bilhões de dólares a Moscou.
Zhirinovsky e seu Partido Liberal Democrata obtiveram o direito de vender 75,8 milhões de barris de petróleo iraquiano entre junho de 1997 e dezembro de 2002, segundo o texto. Esses contratos representavam lucros de 8,7 milhões de dólares.
A comissão estima que pelo menos 3 milhões de dólares tenham ficado para o Conselho Presidencial da Rússia, seja por Voloshin ou por seu braço-direito, Sergei Isakov. As transações também resultaram em 5,6 milhões de dólares em comissões ou superfaturamento.
Voloshin e Zhirinovsky já haviam negado as acusações, e funcionários russos disseram que vão esperar pelo relatório definitivo sobre o assunto encomendado pela ONU.
O Senado dos EUA realizará na terça-feira uma audiência sobre a suposta corrupção no Iraque.
- O objetivo dessas audiências é detalhar o enorme volume de alocações (de petróleo) para a Rússia, sendo a Rússia uma nação exportadora de petróleo - disse o senador Norm Coleman, presidente da subcomissão.
O programa da ONU, que movimentou 67 bilhões de dólares, começou a sofrer sérios abusos no final de 2000, quando o Iraque exigiu "comissões" nas exportações de petróleo. Isso mudou em meados de 2001, quando a Grã-Bretanha e os Estados Unidos estabeleceram retroativamente, no Conselho de Segurança, o preço do petróleo gerenciado pela ONU.
Ao mesmo tempo, Washington, Londres e Paris tentavam reduzir a lista de 700 compradores de petróleo. Várias dessas empresas eram "laranjas". A Rússia rejeitou a proposta.
O relatório da CIA estimava que o Iraque tenha embolsado cerca de 1,5 bilhão de dólares com o programa petróleo-por-comida. O país teria ganhado outros 8 bilhões com a venda de petróleo subsidiado para vizinhos como Jordânia, Turquia e Síria, por fora do programa da ONU, mas com conhecimento de membros do Conselho de Segurança.