Por O Estado de S. Paulo 10/05/2011 às 23:43
O tom do debate demonstrava o desespero das autoridades.
"Essa maldita coisa pode explodir. Seria um fracasso da UE", alertava outro.
Enquanto a Europa e os mercados financeiros seguravam a respiração esperando uma solução para a crise grega, a cúpula do FMI quebrava a cabeça em busca de uma fórmula que pudesse atender às necessidades de financiamento da Grécia.
?Sem solução, iremos ao inferno?, diz Kahn
Reportagem do ?Estado? acompanha bastidores das tensas negociações da União Europeia e do FMI em busca de uma saída para a crise grega
10 de maio de 2011 | 23h 00
Jamil Chade, de O Estado de S. Paulo
ZURIQUE - Tenso, inquieto e caminhando sem direção, o diretor-gerente do Fundo Monetário Internacional (FMI), Dominique Strauss-Kahn, percorria ontem os corredores de um elegante hotel em Zurique com algumas preocupações em sua mente: salvar a Grécia, a Europa e o euro. "Se não houver uma solução, iremos todos para o inferno", disse em uma conversa telefônica.
Enquanto a Europa e os mercados financeiros seguravam a respiração esperando uma solução para a crise grega, a cúpula do FMI quebrava a cabeça em busca de uma fórmula que pudesse atender às necessidades de financiamento da Grécia. Porém, essa solução não deveria assustar os mercados sobre a incapacidade da comunidade internacional em dar uma solução para a crise.
O Estado foi um dos poucos jornais que acompanhou os bastidores dessa busca por uma solução, que também envolve a União Europeia (UE). Dentro de um dos hotéis de luxo de Zurique, alguns dos maiores economistas do mundo se reuniram para debater o cenário financeiro internacional em uma sala de conferência.
O tom do debate demonstrava o desespero das autoridades. "Não adianta esperar algumas semanas. A situação não vai melhorar", dizia um dos principais conselheiros do FMI a Strauss-Kahn. O FMI, normalmente rígido em relação as suas declarações, rompeu ontem uma barreira psicológica e parecia nem se importar em debater a situação da Grécia, mesmo sabendo que a imprensa estava na mesma sala.
A avaliação da cúpula do FMI é de que a Grécia não pode ser abandonada. Mas os economistas sabem que terão de apresentar um projeto "suave" para não causar mais polêmica em países como a Alemanha e Finlândia, em que os governos não querem mais gastar dinheiro público para salvar os maus alunos da Europa. "Temos de arrumar logo esse problema", dizia o conselheiro. "Essa maldita coisa pode explodir. Seria um fracasso da UE", alertava outro.
Todos usaram dezenas de vezes a palavra "reescalonamento" para explicar como apresentariam a "restruturação" da dívida grega e, assim, não feririam as sensibilidades de contribuintes do resto da Europa, que não querem dar mais seu dinheiro para pacotes.
Até mesmo o momento do acordo era debatido. "Tem de ser feito num fim de semana, logo na manhã de um domingo para que os alemães tenham tempo de convencer a oposição durante a tarde e para que o acordo esteja pronto para a segunda-feira", sugeriu um assessor à Strauss-Kahn.
Leiloar. Em determinado momento, Strauss-Kahn pediu o celular de um dos seus assessores e fez uma ligação. Mas, uma vez mais, o assunto era a Grécia. Caminhando sem parar enquanto falava, o diretor do FMI foi enfático. "Precisamos de um plano de três anos, com ou sem eleições. Lamento muito dizer isso", afirmou Strauss-Kahn. Os governos de Portugal e Irlanda já caíram, justamente, por causa dos pacotes de austeridade que tiveram de adotar.
Na mesma tarde, Strauss-Kahn e a ministra de Finanças da França, Cristine Lagarde, se reuniram por mais de uma hora para debater o que fazer com a Grécia, deixando o evento para o qual foram convidados. Ao deixar o encontro, Lagarde foi enfática em relação ao compromisso da Europa com a Grécia. "Estamos socorrendo eles por um ano e vamos continuar."
http://economia.estadao.com.br/noticias/economia+internacional,sem-solucao-iremos-ao-inferno-diz-kahn,66379,0.htm