Rio de Janeiro, 23 de Abril de 2026

Sem acordo, eleições no Haiti caminham para o impasse

Assessor para assuntos internacionais do presidente Lula, Marco Aurélio Garcia afirmou nesta quarta-feira que o governo brasileiro considera que o reconhecimento da vitória de René Préval seria a "melhor solução" para o fim da tensão no processo eleitoral do Haiti. No entanto, ainda há várias barreiras para se chegar a uma solução e se evitar um impasse perigoso. (Leia Mais)

Quarta, 15 de Fevereiro de 2006 às 21:53, por: CdB

Assessor para assuntos internacionais do presidente Lula, Marco Aurélio Garcia afirmou nesta quarta-feira que o governo brasileiro considera que o reconhecimento da vitória de René Préval seria a "melhor solução" para o fim da tensão no processo eleitoral do Haiti. No entanto, ainda há várias barreiras para se chegar a uma solução e se evitar um impasse perigoso.

- Tendo em conta o clima existente no país, essa seria a melhor solução. O ideal seria que os candidatos, além de reconhecer a sua derrota no primeiro turno, reconhecessem que a situação configura claramente a vitória de Préval - disse Garcia, em Brasília.

Marco Aurélio Garcia revelou ainda que fez contatos políticos com representantes de outros países que integram a missão de estabilização da ONU no Haiti em busca de uma "fórmula que, respeitada a legalidade", permita a eleição de Préval sem a realização de um segundo turno.

Maioria

Uma das opções para isso, de acordo com o assessor de Lula, seria que o conselho eleitoral haitiano desconsiderasse os votos brancos e nulos, o que garantiria a maioria absoluta dos votos para Préval. Garcia negou que articulações desse tipo sejam uma manobra antidemocrática e reafirmou a preocupação do Brasil com o clima de violência no Haiti e com a possibilidade de que a situação no país piore caso Préval não seja declarado o vencedor das eleições.

- O governo brasileiro não está querendo mudar as regras do jogo. Estamos fazendo uma consideração de natureza política, e esse é um problema que somente os haitianos podem resolver - disse o assessor de Lula.

Apuração

Os últimos dados divulgados pelo conselho eleitoral haitiano indicam que, com 90% dos votos apurados, Préval tem 48,76% dos votos. O candidato precisaria de 50% mais um dos votos válidos para evitar o segundo turno. Préval, que já foi presidente do Haiti entre 1996 e 2000, acusou as autoridades eleitorais de cometer fraudes para impedir a sua vitória no primeiro turno. Milhares de eleitores de Préval têm saído às ruas para exigir que ele seja declarado vitorioso, em manifestações que já deixaram pelo menos dois mortos.

O candidato, ex-aliado do presidente deposto Jean Bertrand Aristide, pediu que seus partidários continuem os protestos, mas de forma pacífica. Na terça-feira, o conselho eleitoral haitiano anunciou que vai criar uma comissão para investigar as acusações de fraude nas eleições realizadas no último dia 7.

Missão da ONU

O Brasil comanda as tropas da missão de estabilização da ONU no Haiti desde 2004, quando uma revolta popular no país derrubou o então presidente Jean Bertrand Aristide. Entre os dias 3 e 10 de fevereiro, o Haiti viveu a sua semana mais pacífica dos últimos meses com apenas quatro seqüestros ocorridos no país, contra os quase 60 que foram registrados nas semanas de dezembro.

Analistas dizem que a relativa calma se deve justamente ao favoritismo de Préval, que teria o apoio de líderes de gangues que estão por trás da violência no país. Nesta quarta-feira, em Brasília, Marco Aurélio Garcia disse ainda que a comunidade internacional tem recomendado que Préval evite "jogar mais lenha na fogueira" e procure o diálogo com seus adversários em busca de um acordo para que não haja segundo turno.

- Acho que seria uma iniciativa sensata. Se Préval efetivamente fizer um gesto nessa direção, as coisas podem ser facilitadas - afirmou Garcia.

O assessor de Lula destacou, no entanto, que as considerações do governo brasileiro sobre o processo eleitoral no Haiti não são uma interferência no futuro político do país e que qualquer definição será o resultado de uma "decisão soberana" dos haitianos. Por fim, Marco Aurélio Garcia disse que as tropas brasileiras permanecerão no Haiti "o suficiente para evitar que a violência volte" ao país.

- Não devemos trabalhar com prazos cronológicos, mas sim com prazos políticos - conc

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