Por José Inácio Werneck - Algo curioso se passou quando a entrevista coletiva de Luiz Felipe Scolari se aproximava do fim, depois do jogo em que Brasil e México ficaram no emparte de 0 a 0. O treinador brasileiro mostrou que esperava um pênalti.
Ao contrário do que pensa Scolari, a preferência nacional não é por jogo ganhados por pênalti
Algo curioso se passou quando a entrevista coletiva de Luiz Felipe Scolari se aproximava do fim, depois do jogo em que Brasil e México ficaram no emparte de 0 a 0.
Quando o funcionário da FIFA tentou dar a entrevista por encerrada, Scolari protestou e disse:
-Agora é minha vez de fazer uma pergunta.
Antes que ele tivesse tempo de falar, um repórter mexicano perguntou-lhe se ele gostava de Ochoa, o goleiro mexicano, que fechara o gol contra o Brasil.
-No momento, não muito - disse Scolari, com uma risada, mas acrescentou, sério:
-O que eu quero saber é se não vale mais marcar pênalti em favor do Brasil.
Foram palavras reveladoras. Scolari, conhecido como Felipão, se referia ao pênalti apitado em favor do Brasil contra a Croácia, aos protestos da imprensa mundial, achando que não fora pênalti, e ao fato de que, segundo ele, Marcelo sofrera um pênalti contra o México, mas o juiz turco deixara passar em branco.
Palavras reveladoras porque deixam escapar que cavar pênaltis passou a ser uma das táticas de Scolari durante esta Copa do Mundo, talvez por achar que os juízes seriam levados a favorecer o Brasil.
Ou talvez porque cavar pênaltis é uma característica natural dos jogadores brasileiros, quer daqueles que atuam no Brasil quer daqueles que vão para a Europa ganhar salários milionários.
Nos campos mundiais, os jogadores brasileiros são conhecidos como “piscineiros”, “divers” e assim por diante.
É um hábito antigo. Lembro-me de um jogador, que foi do América, do Flamengo e da Seleção Brasileira, que era conhecido como “Luizinho Tombo”, justamente por causa de seu hábito de quedas espetaculares.
É o famoso “cai-cai” de nossos campos.
Tanto no caso de Fred quanto no de Marcelo, eles sentiram nos ombros as mãos de um adversário e imediatamente se atiraram, gesticulando e gritando, pedindo o pênalti.
Fred foi atendido, Marcelo não. Felipão queria não apenas o primeiro pênalti mas também o segundo.
Mas eis que outra coisa curiosa aconteceu. Em meu “blog” na Gazeta Esportiva escrevi uma postagem intitulada “Chega de Encenação” e coloquei-me firmemente no campo dos incrédulos.
A Lei 12 da FIFA diz que, se um jogador segurar o outro, deve ser punido com tiro livre direto e, se for dentro da área, com pênalti.
Mas a decisão de saber se o atacante realmente foi seguro depende do juiz e não do atacante. O que se espera do atleta é que ele tente prosseguir na jogada e não que gesticule para o juiz.
O curioso que aconteceu depois que enviei minha postagem é que, em quase 30 comentários de leitores, apenas um achou que tinha sido pênalti. Todos os demais disseram que Marcelo “encenou” e o juiz acertou.
Diversos leitores lembraram o caso do suíço Behrami que, na partida contra o Equador, sofreu uma falta, levantou-se, prosseguiu na jogada e, aos 93 minutos e 40 segundos (num jogo que iria a 94 por causa dos acréscimos), deu o passe que resultou no gol da vitória de sua Seleção.
Ao contrário do que Scolari acredita, a simulação não é uma preferência nacional.
José Inácio Werneck, jornalista e escritor, trabalhou no Jornal do Brasil e na BBC, em Londres. Colaborou com jornais brasileiros e estrangeiros. Cobriu Jogos Olímpicos e Copas do Mundo no exterior. Foi locutor, comentarista, colunista e supervisor da ESPN Internacional e ESPN do Brasil. Colabora com a Gazeta Esportiva. Escreveu Com Esperança no Coração sobre emigrantes brasileiros nos EUA e Sabor de Mar. É intérprete judicial em Bristol, no Connecticut, EUA, onde vive.
Tags:
Relacionados
Edições digital e impressa
Utilizamos cookies e outras tecnologias. Ao continuar navegando você concorda com nossa política de privacidade.