SCOLA EM DVD: AMOR, SUJEIRA E OUTRAS ESPECIALIDADES
Quando Ettore Scola lançou seu primeiro longa-metragem como diretor, em 1964, a Itália já tinha revelado os maiores gênios que podia naquela década, adiando a explosão de Scola no meio. Antonioni já tinha feito sua trilogia (A aventura, A noite e Eclipse). Fellini já tinha escandalizado com seu A doce vida. Pasolini, o cineasta mais próximo, emplacara O evangelho segundo Mateus... e não parecia ter espaço para mais um novo cineasta. Scola, assim como Bellocchio e Ferreri, só tiveram a devida atenção na década seguinte. E seus três primeiros sucessos internacionais, Nós que nos amávamos tanto, Feios, sujos e malvados e Um dia muito especial, todos da década de 1970, estão sendo lançados pela Versátil em DVD.
Scola não teve a pretensão de mudar o cinema italiano, teve o bom senso de refleti-lo. Como se observa em Nós que nos amávamos tanto, a Itália não precisava de mais uma sacudida estética. Precisava mesmo era de uma revisão. E nada mais coerente do que a trajetória iconoclasta dos três amigos protagonistas do filme. Aliás, pelos três filmes, Scola mostra diferentes lados dos parias da Itália: os pseudo-intelectuais, os economicamente excluídos (de Feios, sujos e malvados) e os ideologicamente inviáveis (o amor incondicional entre uma dona de casa e um gay subversivo durante a ascensão do regime fascista em Um dia muito especial).
Nos extras dos DVDs temos entrevistas com o cineasta, a restauração de Um dia muito especial e depoimentos de diversos profissionais ligados a Scola, como Armando Trovajoli e Luciano Ricceri.
Conversa com Eduardo Giffoni
Qual a importância de Ettore Scola no cinema italiano dos anos 70 e 80?
O Scola é considerado o maior diretor de cinema italiano nos anos 70 e 80 porque ele herda a tradicional comedia italiana do pós guerra que era feita por uma geração de cineastas como Dino Risi, Luigi Comencini e Mario Monicelli. E nessas comédias ele sempre coloca como pano de fundo a temática social aliada a uma proposta política. Essa proposta está obviamente lincada com a questão do partido comunista italiano porque ele sempre foi filiado ao partido comunista e nunca negou.
Mas a política é apenas uma ramificação dos filmes, não algo imposto.
Não é um cinema panfletário. Na verdade ele tenta fazer uma reflexão crítica dos descaminhos da sociedade italiana. É um cinema repleto de italianismo.
Essa herança de diretores do pós-guerra somada a questões basicamente italianas fazem do cinema de Scola algo esteticamente pouco rebuscado e de abrangência limitada. Porém, encantador e adaptável, porque, por exemplo, os amigos de Nós que nos amávamos tanto não necessariamente poderiam ser apenas italianos. Ou até mesmo a família de Feios, sujos e malvados...
Talvez o único filme do Scola que seja esteticamente ousado seja O baile (de 1983), que é um filme sem diálogo, todo musicado e dançado, que narra toda a história da Itália através de um baile. O Scola na verdade é um grande diretor de atores. Ele procura fazer uma narrativa sem rupturas com a linguagem, traduzindo suas imagens em narrativas contemporâneas. E ele deixa implicitamente, com a estética que for, esse sentido de italianidade: uma estética extremamente humanista. Com isso ele procura fazer uma reflexão sobre o italiano e sobre o cinema italiano. Eu apontaria duas obras primas do Ettore Scola: no sentido de estética, O Baile, no sentido tradicional, Um dia muito especial.
Sem dúvida. Um dia muito especial ainda se aproxima mais da geração pós-guerra, que influenciou Scola, por causa do tema.
O filme é uma crític