A estabilidade da economia trouxe um problema para a sociedade: o crescimento do número de compradores compulsivos. Para conter esse avanço, o setor de psiquiatria da Santa Casa de Misericórdia, no Rio de Janeiro, começa a implantar na próxima semana serviço para atender pessoas que têm o vício de comprar sem limites.
De acordo com a psicóloga Ângela Duque, do Centro de Transtorno do Impulso e de Dependência, a Santa Casa, que é uma instituição filantrópica, vai iniciar a triagem das pessoas que participarão do grupo de auxílio para tratar desta patologia. O serviço vai funcionar na matriz, no Centro.
– Trata-se de uma patologia, uma doença, mas como não tem cura nem remédio, as pessoas custam a perceber que precisam de ajuda, disse a psicóloga.
O novo serviço vai seguir o padrão do trabalho que é realizado com grupos de jogadores patológicos, que a Santa Casa promove com o programa Jogadores Anônimos (JA).
Os coordenadores de programas voluntários de ajuda, como o JA, observaram, desde o fechamento dos bingos, em meados de 2007, que o número de pessoas atendidas para largar o vício vem baixando. Entre as mulheres, a redução chega a 70%. Entre os homens, há a suspeita de que eles estão migrando para os bares onde ainda há máquinas caça-níqueis.
Embora também proibidos, os caça-níqueis ainda são encontrados camuflados por caixas de bebida, num canto de estabelecimentos, em botequins.
– Os bingos ofereciam conforto, segurança e tinham uma aura de legalidade, o que não incomodava tanto as famílias dos jogadores. Os botecos são ambientes acanhados, sujos e que não atrai as mulheres. Elas se sentiam protegidas nos bingos. Para os homens, o ambiente menos asseado não representa um problema, explicou o coordenador.
Segundo ele, de dezembro para cá, houve uma queda brusca na freqüência do JA. Dos 13 grupos existentes no Rio – sendo um deles em Petrópolis, na Região Serrana – alguns estiveram ameaçados de fechar por falta de freqüentadores. O coordenador diz que atualmente, a freqüência está em aproximadamente 25% do que era no auge dos bingos.
– Naquela época, as mulheres eram 50% dos freqüentadores do JA. Hoje, há grupos com apenas uma ou duas mulheres. Elas não aparecem mais. Os homens, que antes freqüentavam os bingos, agora procuram os caça-níqueis. Antes dos bingos esse era o perfil dos nossos freqüentadores, disse outro coordenador do JA, lembrando que a entidade não tem uma estatística oficial sobre o assunto.
Segundo Ângela Duque, que em 2006 fez um levantamento sobre os jogadores patológicos com informações passadas pelo JA, o fechamento dos bingos representou uma vitória. Ela acredita que as mulheres que deixaram de comparecer aos grupos de apoio devem ter parado de jogar.
Os homens migraram para outros tipos de jogo – cartas, corridas de cavalo, jogo do bicho, caça-níqueis – ou pior, para outro tipo de vício. Segundo Ângela, não é difícil um jogador patológico desenvolver a dependência de bebida alcoólica, do tabagismo ou das drogas.
– Isso acontece quando um vício, o de jogar, por exemplo, puxa o outro, o de beber. A pessoa perde o limiar da censura e começa a migrar para outros vícios para suprir a abstinência, o vazio deixado pelo vício anterior, concluiu.