Os fatos recentes que estão escandalizando o país simplesmente expõem parte do que ocorre no submundo da política brasileira. Quem não sabe como são feitas as salsichas, as leis e as eleições? A novidade é que as CPIs de agora estão proporcionando, com altos índices de audiência nas TVs, tristes espetáculos de sociopatia. A mentira, a hipocrisia, o cinismo, a falsidade, aparecem reluzentes nas faces de inquisidores e de depoentes. As câmeras têm revelado com riqueza de detalhes aspectos sombrios do caráter daqueles personagens das CPIs.
As investigações não conseguem ir além da superfície do sereno mar que encobre o financiamento das campanhas eleitorais. As campanhas eleitorais no Brasil estão entre as mais caras do mundo e escondem a corrupção endêmica que contamina as relações entre o público e o privado.
Especialistas da Universidade de São Paulo (USP) calcularam que nas eleições municipais de 2004 cerca de 400 mil políticos empregaram algo em torno de 12 milhões a 16 milhões de trabalhadores, para disputar 55 mil vagas de vereador e 5.600 cargos de prefeito no país. A infra-estrutura das campanhas eleitorais municipais de 2004 - propaganda dos candidatos veiculada pelos mais variados meios de comunicação - comícios, shows, alugueis, equipamentos de comitês eleitorais, assessores, enfim, custou cerca de 5 bilhões de reais. O total gasto atingiu a cifra de 41 reais por eleitor.
Especialistas estimam que, por baixo, mais da metade do dinheiro envolvido em campanhas não aparece nas prestações de contas. Cerca de 70% a 80% das despesas dos candidatos não são registrados como manda a lei. O que daria em média geral 1 real para o caixa oficial e 3 reais para o caixa dois. Quem adota o caixa dois costuma dizer que as contribuições sem registro são feitas a pedido dos contribuintes, que não querem se expor, como se o problema fosse a Lei Eleitoral.
O professor David Samuels, da Universidade de Minnesota, pesquisador do processo eleitoral no Brasil, analisou o perfil de doadores oficiais a partir dos registros do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e chegou a que as candidaturas a presidência da República são financiadas com maior volume de recursos do setor financeiro e da indústria pesada, como a de aço e a petroquímica. Isso porque a Presidência da República é quem responde pela macroeconomia (juros, tarifas, câmbio e política de exportação). Além disso, lida com marco regulatório e concessão de subsídios. Os setores financiadores das campanhas à presidência da República costumam ser os mesmos das candidaturas ao Senado Federal e à Câmara dos Deputados porque os assuntos tratados no Senado e na Câmara são também do âmbito da União; já as candidaturas a governador recebem mais recursos de empreiteiras, isso porque as grandes obras estão mais concentradas nos Estados; os candidatos a prefeito e vereador recebem mais recursos das empresas de transporte e de coleta de lixo.
A campanha da reeleição do presidente Fernando Henrique Cardoso é considerada por especialistas a mais cara da história do país. A campanha à reeleição já nasceu contaminada. Segundo denúncia publicada na época pelo jornal Folha de São Paulo, a aprovação da emenda que possibilitou a reeleição contou com a compra do voto de vários parlamentares na Câmara dos Deputados, por R$ 200 mil cada um.
No início da campanha presidencial de 1998, o comitê eleitoral responsável pelas articulações da reeleição do presidente Fernando Henrique Cardoso elaborou um orçamento minucioso de gastos e concluiu que, para cobrir todas as despesas do pleito, seria necessário R$ 73 milhões. Esse orçamento prévio foi comunicado ao Tribunal Superior Eleitoral. Passadas as eleições o comitê fez as contas e encaminhou a declaração oficial de doações ao TSE, informando que o total arrecadado e gasto na campanha foi de R$ 43,022 milhões.
A revista Época, de 30 de novembro de 1998, informou que a equipe que cuidou das finanças, c