O escritor britânico Salman Rushdie saiu em defesa de Guenter Grass nesta quinta-feira, depois que o romancista alemão confessou ter sido membro, quando adolescente, das Waffen SS, tropa nazista de Adolf Hitler.
Grass ganhou fama com seu primeiro romance O Tambor e virou ícone da esquerda alemã devido a seu pacifismo declarado. Ele fez a admissão chocante em uma entrevista a um jornal, no sábado, antes do lançamento de sua autobiografia na Alemanha.
- Sinto que o ultraje é um pouco fabricado - disse Rushdie, depois que Grass foi alvo de ataques de escritores, críticos literários, historiadores e políticos alemães.
Rushdie disse estar extremamente chocado e decepcionado pela confissão de Grass, "mas não há indício, pelo que eu saiba, de que ele esteve envolvido em qualquer tipo de crime de guerra".
Definindo a participação de Grass nas Waffen SS como um engano que talvez fosse desculpável por causa da sua pouca idade.
- Sua grandeza vem do fato de que ele é um gigante no mundo da literatura. Ele continua, hoje, o mesmo grande escritor que era há alguns dias - declarou o autor.
Grass disse na terça-feira que sua obra literária estava sendo denegrida desde que ele fez sua confissão.
Lançamento antecipado
A editora do escritor alemão Günter Grass deu sinal verde, na quarta-feira, para a venda de sua autobiografia, 15 dias antes do previsto, diante da polêmica na imprensa causada pela confissão tardia do escritor de que fez parte das Waffen-SS (força de elite nazista).
Beim Häuten der Zwiebel, o livro mais comentado na Alemanha desde semana passada, já está à disposição do leitor, enquanto rádios e televisões produzem programas especiais sobre o caso.
A edição é de 150 mil exemplares - exatamente o previsto, segundo a editora Steidl - e traz o capítulo em que o prêmio Nobel de Literatura e Príncipe de Astúrias das Letras de 1999 conta sua passagem pelas Waffen-SS.
Assim se cumpre o desejo de Grass de que o leitor possa julgar por si mesmo o fato, que ocupa poucas páginas das 480 do livro.
No capítulo Wie ich das Fürchten lernte (literalmente, Como aprendi o medo), Grass conta que chegou de trem a Dresden, onde o comunicaram de que se formaria na divisão Frundsberg, das Waffen-SS, e não em um submarino, como ele queria.
Os dois "S" nos uniformes "não me pareceram chocantes", escreve, explicando em seguida que "o que aceitei com orgulho estúpido em minha juventude, quis esconder após a guerra por uma vergonha que nasceu depois".
Grass diz que na época via as Waffen-SS como "um corpo de elite", e ignorava seus atrozes crimes de guerra.
Embora ele não tenha participado desses crimes, disse que ficou claro que "teria que viver com isto" pelo resto de seus dias.
Após a Segunda Guerra Mundial (1939-1945), quando viu as fotos e filmagens das "montanhas de cadáveres e dos fornos" dos campos de concentração, achou que se tratava de propaganda americana, convencido de que "os alemães não fazem isso".
É mais ou menos o que já tinha explicado na entrevista que gerou o escândalo, publicada no sábado no jornal "Frankfurter Allgemeine Zeitungque". Transformado em livro, em seu conjunto e segundo as primeiras críticas, é uma obra especial.
O capítulo de Grass nas Waffen-SS - aonde chegou com 17 anos, ficou por alguns meses e não disparou um só tiro - não teria se transformado em fenômeno midiático se o autor não fosse, há décadas, a consciência crítica da Alemanha.
Os historiadores buscam determinar se essa confissão tardia é imperdoável, e tudo indica que o livro se transformará no lançamento editorial do ano.
Essa possibilidade parece dar razão à presidente do Conselho Central dos Judeus da Alemanha, Charlotte Knobloch, que vê em toda a situação uma campanha propagandista.
Se o apresentador mais popular do país, Ulrich Wickert, antecipou em várias semanas sua estréia