Rio de Janeiro, 10 de Maio de 2026

Salman Rushdie condena a cultura da celebridade

Quando Salman Rushdie se queixa de ser tratado pela imprensa como celebridade, fica claro que os efeitos da "fatwa" iraniana que o condenara à morte já se desfizeram. O escritor indiano provocou revolta no mundo muçulmano com seu livro Os versos satânicos, visto como blasfemo, e em 1989 ele foi sentenciado à morte por clérigos iranianos. Hoje ele condena a cultura da fama instantânea quase tanto quanto condena o radicalismo islâmico. (Leia Mais)

Terça, 06 de Setembro de 2005 às 03:12, por: CdB

Quando Salman Rushdie se queixa de ser tratado pela imprensa como celebridade, fica claro que os efeitos da "fatwa" iraniana que o condenara à morte já se desfizeram.

O escritor indiano provocou revolta no mundo muçulmano com seu livro <i>Os versos satânicos</i>, visto como blasfemo, e em 1989 ele foi sentenciado à morte por clérigos iranianos. Hoje ele condena a cultura da fama instantânea quase tanto quanto condena o radicalismo islâmico.

- O problema é que, quando você é conhecido, existe por parte de setores da mídia o desejo de escrever sobre você mesmo quando você não tem um livro do qual falar - disse o escritor de 58 anos em entrevista concedida na semana passada.

- Eles falam de toda espécie de bobagem.

Assim, depois de ter vivido isolado na Grã-Bretanha, sob proteção 24 horas por dia, sendo transferido de casa em casa para escapar de potenciais assassinos, Rushdie se tornou presença constante em jornais e revistas ansiosos por registrar seu gosto por participar de festas.

- Do mesmo modo como o radicalismo islâmico é uma das maldições de nossos tempos, a cultura das celebridades também é.

O fascínio da mídia por uma personalidade que abarca os mundos da literatura e do show business aumentou desde que, no ano passado, Rushdie se casou com a atriz e ex-modelo indiana Padma Lakshmi.

Rushdie disse que o efeito dos nove anos vivendo escondido em função da "fatwa", que o transformou no escritor talvez mais conhecido do mundo, já ficou para trás.

- Em termos dos efeitos dela sobre minha vida diária, hoje eles não existem - disse o escritor no escritório de seu agente, em Londres, onde não havia sinais de segurança extra. O Irã se distanciou formalmente da fatwa em 1998.

- Essa questão só vem à tona quando dou entrevistas. Eu me esforcei muito para virar a página e começar um capítulo novo em minha vida; 99 % do tempo, a 'fatwa' não vem ao caso", disse ele.

<b>LADO SÉRIO DA FAMA</b>

Rushdie brincou, dizendo que a razão pela qual a imprensa presta tanta atenção a sua vida privada é que ele escreve lentamente, o que faz com que as pessoas tenham menos oportunidade de falar de seu trabalho.

Essa situação mudou nas últimas semanas com a proximidade do lançamento de <i>Shalimar, o equilibrista</i>, um romance ambientado em parte na Caxemira e que fala do extremismo islâmico, da brutalidade militar, do amor e da traição, além do fenômeno da fama.

O livro foi lançado primeiro no Brasil, em português, durante a Festa Literária Internacional de Parati (Flip), com a presença do escritor, em julho.

- Meu problema é que escrevo devagar. Se eu conseguisse produzir um livro por ano, então, sem dúvida, poderia falar de meus livros com mais frequência - disse Rushdie em Londres, onde está divulgando <i>Shalimar</i>.

-Este livro me levou quatro anos. É um projeto demorado.

O romancista britânico disse que tem a obrigação de utilizar sua fama para boas causas.
Como presidente da sucursal norte-americana da PEN, organização de escritores que defende a liberdade de expressão, ele ajuda autores ameaçados de prisão ou algo ainda pior em função de seus escritos.

- Ninguém quer escrever sobre isso - disse Rushdie.

- Querem escrever sobre mim jogando palavras cruzadas com Kylie Minogue, mas o fato de que a PEN diariamente ajuda a salvar as vidas de escritores ameaçados parece que não merece ser mencionado.

Ele descreveu o caso recente de um escritor iraniano ameaçado de ser deportado da Austrália, mas autorizado a permanecer no país após a intervenção da PEN, "que quase certamente salvou sua vida".

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