Rio de Janeiro, 29 de Março de 2026

Saddam é expulso do tribunal por desacato ao juiz

Quarta, 20 de Setembro de 2006 às 09:22, por: CdB

O juiz Mohammed al-Ureybi expulsou, nesta quarta-feira, Saddam Hussein do tribunal onde ele está sendo julgado por genocídio, e os advogados de defesa protestaram pela súbita ordem do governo para a troca do magistrado que presidia o julgamento. O governo retirou o juiz Abdullah al-Amiri do caso durante a noite, alegando que ele havia abandonado sua neutralidade ao declarar, na semana passada, que Saddam "não era um ditador". Grupos ativistas internacionais disseram que a medida não levou em consideração as prerrogativas do tribunal.

- Retirem-no do tribunal - disse o novo juiz, al-Ureybi, aos guardas, quando Saddam gritou e se recusou a ficar sentado.

Saddam acusou o novo juiz de ser filho de um espião do governo antes da invasão do Iraque, em 2003.

- Seu pai era um agente de segurança! Eu o conhecia. Ele tinha uma operação aqui - disse Saddam, mostrando o abdome.

O juiz retrucou, enquanto Saddam era retirado:

- Desafio-o a provar isso para o público.

O tribunal está julgando Saddam, seu primo Ali Hassan al-Majeed (o Ali Químico) e cinco outros assessores por crimes contra a humanidade durante o assassinato de curdos em Anfal em 1988. Saddam e Majeed também estão sendo acusados de genocídio. Todos estão sujeitos à pena de enforcamento, se condenados. O advogado de defesa Wadood Fawzi disse que a pressão do governo está impedindo o conselho de fazer seu trabalho. "A retirada do juiz confirmou nossos temores de que esta corte não tem condições de realizar um julgamento justo", disse Fawzi.

- Se vocês quiserem ir embora, tudo bem. Vão - disse o juiz. Os advogados de defesa deixaram o tribunal.

Ureybi determinou que os réus fossem representados por defensores públicos e deu continuidade ao julgamento, com o testemunho de um morador curdo idoso. Os outros seis réus permaneceram no tribunal. O porta-voz do governo, Ali al-Dabbagh, disse na terça-feira que a decisão de retirar Amiri do tribunal foi tomada pelo gabinete, em concordância com a lei da Alta Corte Criminal Iraquiana, que permite ao governo transferir juízes do tribunal por "qualquer motivo".

Mas grupos ativistas afirmaram que a decisão do premiê Nuri al-Maliki um mês depois do início do julgamento afetou a legitimidade do tribunal perante os iraquianos. O gabinete "não apenas interferiu na independência a corte mas também prejudicou a aparência de neutralidade e objetividade do tribunal", disse Richard Dicker, observador da Human Rights Watch.

No julgamento anterior a que Saddam foi submetido, pela morte de xiitas nos anos 1980, o juiz-chefe deixou o posto em protesto contra a interferência do governo. O veredicto daquele caso deve ser divulgado no mês que vem. O julgamento atual pretende deixar para trás um dos piores capítulos do domínio de Saddam. A promotoria diz que 180 mil moradores foram mortos na campanha de 1988 contra militantes curdos. Milhares teriam sido envenenados por gases tóxicos.

Na semana passada, o promotor Munqith al-Faroon havia pedido a renúncia do juiz por ele ser permissivo demais, já que tinha deixado Saddam fazer discursos políticos e ameaçar testemunhas. Saddam ameaçou "esmagar a cabeça" de seus acusadores.

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