Saddam Hussein, fragilizado por duas semanas de greve de fome, disse nesta quarta-feira que foi forçado a comparecer ao seu julgamento por crimes contra a humanidade e que, se for considerado culpado, prefere ser fuzilado a ser enforcado.
A equipe de defesa do ex-ditador e de sete autoridades iraquianas acusadas junto com ele boicotaram a sessão de segunda-feira do julgamento, que se aproxima de sua conclusão.
- Não foi escolha minha vir ao tribunal - disse Saddam ao juiz, vestindo um terno escuro e segurando uma cópia do Corão.
- Escrevi uma petição esclarecendo que não queria vir ao tribunal, mas eles me trouxeram contra minha vontade ... Eu estou em greve de fome desde 8 de julho - disse.
Saddam, de 69 anos, foi alimentado por meio de um tubo durante a greve de fome, feita contra o que ele diz ser um julgamento injusto. O homem que comandou o Iraque com punho de ferro disse que prefere ser levado diante de um pelotão de fuzilamento a ser enforcado caso seja condenado.
- Eu o aconselho, como um iraquiano, que, se estiver numa circunstância em que tiver de determinar uma pena de morte, a se lembrar que Saddam é um militar e, neste caso, o veredicto deve ser a morte a tiros e não por enforcamento - disse ele ao juiz.
Saddam nomeou a si mesmo como comandante do Exército, embora na prática nunca tenha sido treinado ou atuado como soldado até chegar ao poder.
A greve de fome parece não ter abalado o estilo combativo de Saddam no tribunal. Embora sua voz, antes imponente, estivesse fraca, o ex-líder iraquiano se comportou de forma furiosa em alguns momentos.
- Mesmo se ficar sem comer por 10 meses, ainda terei toda minha energia e saúde - afirmou.
- Você pensou que Saddam Hussein não seria capaz de falar após 20 dias - perguntou.
Saddam e os outros réus são acusados pela morte de 148 homens e adolescentes xiitas do vilarejo de Dujail, em 1982.
A greve de fome de Saddam e o boicote feito por seus advogados têm prejudicado ainda mais um julgamento que já foi abalado com o assassinato de três advogados de defesa e a renúncia do principal juiz, em protesto contra o que dizia ser interferência do governo.
- Metade de meus advogados foram mortos. É demais para você protegê-los - perguntou Saddam ao juiz-chefe Raouf Abdel Rahman.
Quando um advogado designado pelo tribunal para representar Saddam começou a ler suas considerações finais, Saddam o interrompeu: "Essas considerações foram escritas por um agente americano-canadense".
Os advogados de Saddam acusam o Exército dos EUA de alimentá-lo à força para encerrar a greve de fome.
- No hospital, eles estavam me alimentando pelo nariz direto ao meu estômago - disse Saddam.
Três outros acusados também estão em greve de fome. Acredita-se que sejam eles o meio-irmão de Saddam e ex-chefe do serviço de inteligência Barzan al-Tikriti, o ex-vice-presidente Taha Yassin Ramadan e Awad Hamed al-Bandar, que presidia o Tribunal Revolucionário.