O diretor Ruy Guerra adapta <i>A má hora</i>, um dos romances mais desconhecidos do escritor colombiano Gabriel García Márquez, em <i>O veneno da madrugada</i>, filme que integra a mostra oficial do 53º Festival Internacional de Cinema de San Sebastián.
O filme brasileiro, baseado no romance <i>A má hora</i>, segundo livro do prêmio Nobel colombiano, conta uma história de vinganças em um pequeno povoado latino-americano dos anos 50, mas de três pontos de vista diferentes, o que faz com que o filme volte mais de uma vez a si mesmo.
- Parti de uma base da física moderna que afirma que os conceitos podem ser opostos e verdadeiros. Por exemplo, a Terra pode ser redonda e percebida como plana ao mesmo tempo - disse o cineasta nascido em Moçambique durante entrevista coletiva.
- Se a história fosse contada cronologicamente, as mortes teriam ocorrido ao mesmo tempo. Por isso uso a elipse para contar a verdade de cada um - acrescentou Ruy, que já adaptou outras obras de García Márquez, como <i>Erendira</i>, <i>Fábula da Bela Palomera</i> e <i>Me alquilo para soñar</i>.
Apesar disso, o filme não é uma adaptação 'colada' do livro, mas se distancia dele precisamente pela forma como é contado.
- Para fazer o tipo de cinema de que gosto, tenho que me distanciar do romance. Poderia ser mais fiel, mas não é disso que gosto - explicou, reforçando que o filme "está bem distante da estrutura do romance", mas mantém o universo de García Márquez.
- Tenho sido infiel ao romance, mas fiel a García Márquez - resumiu, explicando a preservação do espírito da obra literária que teve o aval do próprio escritor.
O tom escuro do filme sobre ódios e rancores é obtido com uma fotografia muito escura, que às vezes arrasta o desenrolar da trama, impedindo que o espectador consiga distinguir personagens, o que fez com que muitos espectadores abandonassem a sala antes do fim da projeção.
- Quase todo o filme é construído em plano seqüência", já que "para que as elipses fossem melhor entendidas não queria cortes nas seqüências, o que também forçou os atores a trabalharem em unidades dramáticas maiores.
Este trabalho autoral também foi complicado porque as limitações da produção não permitiam reunir os intérpretes de vários países, como Brasil, Argentina e Portugal algum tempo antes para ensaios, razão pela qual tudo teve que ser feito durante as filmagens.
- Li todos os livros de García Márquez para me encharcar de seu universo e depois deixei sair tudo - explicou a atriz Rejane Arruda, uma das protagonistas do filme.
Ela destacou que o trabalho de ambientação com "a chuva, o barro, a igreja, a selva foi suficiente para trazer à cena toda a força" do universo do escritor colombiano e que, depois, "foi um trabalho de ajuste" de sua personagem, Rosario.
<i>O veneno da madrugada</i> encerra a lista de filmes latino-americanos presentes na seção oficial da mostra, que se encerra no próximo sábado