Rússia e Ucrânia mais próximas após concessão de empréstimos
Presidente da Ucrânia, Viktor Yanukovich está a um passo de cristalizar o apoio da Rússia ao seu governo, com a concessão de um empréstimo nesta terça-feira, durante reunião com Vladimir Putin no Kremlin. Os recursos ajudarão a a afastar uma crise econômica que contribui para alimentar protestos em Kiev.
O ministério russo das Finanças confirmou que há um empréstimo em discussão
Presidente da Ucrânia, Viktor Yanukovich está a um passo de cristalizar o apoio da Rússia ao seu governo, com a concessão de um empréstimo nesta terça-feira, durante reunião com Vladimir Putin no Kremlin. Os recursos ajudarão a a afastar uma crise econômica que contribui para alimentar protestos em Kiev.
Manifestantes vêm exigindo a demissão de Yanukovich desde que ele rejeitou, em novembro, um acordo de associação comercial e de investimentos com a União Europeia. Eles planejam uma nova demonstração de força na capital da Ucrânia, enquanto o presidente estiver reunido em Moscou com seu homólogo russo.
– Yanukovich não tem nada para fazer em Moscou. Não pedimos que ele fosse lá vender a Ucrânia – disse a dona de casa Maria Sirenko, de 40 anos, que participava da multidão de cerca de 2 mil pessoas que já começava a se aglomerar no centro de Kiev.
Centenas de manifestantes também ocuparam a principal via de acesso ao aeroporto. "Yanukovich, dê meia volta no avião para a Europa", dizia um cartaz. Putin parece estar de acordo com o empréstimo, e possivelmente oferecerá também um desconto sobre o gás natural russo, do qual os ucranianos dependem.
– A situação na Ucrânia atualmente é tal que, sem os empréstimos de um lado ou de outro, eles simplesmente não conseguirão manter a estabilidade econômica. Não descarto que, se houver uma solicitação, um crédito possa ser fornecido – disse Andrei Belousov, assessor econômico do Kremlin, à agência russa de notícias Interfax.
O ministério russo das Finanças confirmou que há um empréstimo em discussão. Os títulos da dívida ucraniana expressos em dólar e o custo do seguro dos papéis contra uma moratória caíram, refletindo uma menor preocupação com um calote. O ministro ucraniano da Energia disse que também é provável um acordo para reduzir o preço do gás importado da Rússia.
No domingo, apesar da neve e da temperatura abaixo de zero, os adversários de Yanukovich já reuniram 200 mil pessoas para pedir a renúncia do presidente e a adesão ao acordo com a UE, pouco depois de a União Europeia dar sinais de que começa a faltar-lhe paciência para dialogar com o governo da Ucrânia, ao suspender as negociações sobre o Acordo de Associação com Kiev.
De um modo informal, através da rede social Twitter, o responsável pelo processo de ampliação da UE, o checo Stefan Füle, disse que os argumentos das autoridades ucranianas "não têm base na realidade".
"Disse ao vice-primeiro-ministro Arbuzov, em Bruxelas, que a continuação das negociações dependia de um compromisso claro com vista à assinatura (do acordo). Os trabalhos estão suspensos e não tive resposta", escreveu o comissário, referindo-se à reunião de quinta-feira passada entre os dois responsáveis.
Nesse encontro, em Bruxelas, Stefan Füle fez saber que o Acordo de Associação com a Ucrânia continuava em cima da mesa, mas também estabeleceu um conjunto de condições com críticas implícitas à influência russa no país e com apelos ao envolvimento da oposição no processo de aproximação à UE.
Desde então, segundo o comissário europeu responsável pelo alargamento, o governo nomeado pelo Presidente Viktor Ianukovich manteve-se em silêncio, pelo que as negociações foram interrompidas neste domingo. Se é de uma espécie de jogo de póquer que se trata, como escreve o jornal em língua inglesa Kyiv Post, então o primeiro-ministro da Ucrânia, Mikola Azarov, parece disposto a continuar a esconder a sua mão.
– O governo ucraniano pretende continuar a negociar com a União Europeia a implementação do Acordo de Associação e trabalha nesse sentido – disse o porta-voz de Azarov, Vitaliy Lukianenko, citado pela agência Interfax-Ucrânia.
Atos de protesto
Os atos de protesto em Kiev levaram a Ucrânia a uma crise política profunda, considera o diretor do centro de pesquisas políticas aplicadas Penta, Vladimir Fesenko:
– A crise continua no país e já não se trata de simples atos de protesto provocados pela renúncia à integração europeia. A crise de hoje está refletindo a desconfiança em relação ao poder atual, o descontentamento provocado, inclusive, pelo uso não adequado da força por representantes do poder em 30 de novembro e, posteriormente, pela tentativa de dispersar o chamado Euromaidan em 11 de dezembro.
Peritos ucranianos sustentam que se não fossem os acontecimentos na noite de 30 de novembro, teriam sido empreendidas algumas outras ações. Logo que Yanukovich renunciou a assinar o Acordo, foi ativado um “mecanismo de derrota do poder”. A integração europeia e a tentativa de dispersar pela força o chamado Euromaidan (movimento pró-europeu) foram apenas gatilhos, enquanto os ânimos de protesto se estimulam artificialmente. Os atos semelhantes em outros países não foram tão ressonantes nem nos próprios países, nem na comunidade mundial, destaca Konstantin Zatulin:
– Lembre-se que há pouco algumas pessoas foram mortas em resultado da dispersão de manifestações em Tbilissi nos tempos de Saakashvili. Algumas pessoas foram mortas também em acontecimentos na Turquia, país que entra na zona de livre comércio e de associação com a União Europeia. Ninguém na Turquia e na Geórgia pretendia efetuar um ´açoitamento público´ por este motivo e nenhum departamento de Estado não exigia sanções por esta causa – disse.
As exigências de introduzir sanções pela dispersão do Euromaidan, os apelos à integração europeia ou à libertação de Yulia Tymoshenko passaram para o segundo plano para a oposição ucraniana. Os seus líderes ignoram as tentativas do governo de regularizar pacificamente a situação e não aceitam qualquer diálogo. A troca do poder continua a ser a sua principal exigência.
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