Há mais de dez anos os servidores do RJ não sabem o que é um reajuste linear de salários, apesar da cínica promessa de que, se a arrecadação crescesse, o bolo seria repartido por todos...
27/06/2011
Luiz Ricardo Leitão
Os últimos eventos da Cidade Maravilhosa surpreenderam apenas os mais incautos e ingênuos, que já se esqueceram de que o mundo, por ser (quase) redondo, dá muitas e muitas voltas, ensinando-nos, com doses de infalível dialética, que tudo aquilo que é sólido se dissolve no ar... Que o diga o playboy Cabral, pseudomonarca desta província, que, de tão entretido com as cifras e maracutaias colossais da Copa 2014, subestimou em muito a indignação – e a mobilização – dos bombeiros e de outros setores do serviço público. Há mais de dez anos (sim, eu escrevi dez) os servidores não sabem o que é um reajuste linear de salários, apesar da cínica promessa de que, se a arrecadação crescesse, o bolo seria repartido por todos... Pois bem: o Rio hoje já possui o 2º maior PIB do país e os dutos de gás e petróleo abastecem os cofres do governo com fartas divisa$ dos royalties – mas os bombeiros ganham irrisórios R$ 950,00 mensais e os professores ainda menos do que isso...
Sem tempo para temas tão prosaicos, Dom Cabral só quer saber da Copa, de braços dados com Ricardo Teixeira, João Havelange e Sepp Blatter, aquele capo que acaba de ser reeleito (!) para a presidência da Fifa, mesmo sob investigação na Comissão de Ética (?) da entidade (por conta de mais um escândalo de corrupção e compra de votos no último pleito). O apetite da máfia, aliás, parece não ter fim: a Fifa ainda pode interferir no custo das obras do finado Maracanã (sim, caro leitor, só a carcaça do mítico Maraca está de pé, já que o resto veio abaixo na farra das empreiteiras); o novo teto de R$ 956 milhões deverá ser alterado caso os mafiosos reavaliem o sistema de operação do estádio. Por isso, o contrato com a Odebrecht, Andrade Gutierrez e Delta poderá exibir novos valores até o final de junho!
É duro ver os figurões passeando de jato por Oropa, França e Bahia, enquanto você se espreme que nem sardinha enlatada no trem ou no metrô. É duro ver os executivos cruzando os céus cariocas de helicóptero, enquanto o trabalhador sofre dentro de um ônibus com o trânsito alucinado da metrópole. Não pretendo sequer deter-me na perversa opção que o capitalismo periférico de Bruzundanga abraçou, privilegiando os carros – eternos fetiches da sociedade de consumo – em detrimento do transporte de massa: a falência desse modelo já está decretada há décadas, desde que JK o elegeu como motor do ambíguo “desenvolvimento nacional”.
A grande novidade, porém, é que muita gente voltou a ocupar as ruas para exigir seus direitos. Há aspectos singulares nesse fenômeno, a começar pelo inusitado protagonismo dos “soldados do fogo” em seu confronto com o playboy. Apesar de suas contradições (para ‘aumentar’ a renda, muitos fazem bico como seguranças privados e outros se tornam milicianos), a categoria atuou unida e com bastante criatividade. Manifestações como a flexão abdominal coletiva de 500 bombeiros no cruzamento da Av. Rio Branco com Presidente Vargas, centro nervoso da cidade, causaram pasmo até em velhos militantes do movimento social, que jamais assistiram a protesto tão singular.
Presunçoso e autossuficiente, Dom Cabral não soube avaliar a simpatia que os bombeiros despertam na população e pagou caro por tachá-los de “vândalos” e “irresponsáveis”, após a invasão do Quartel Central da corporação, no Rio. Como observou uma colega da UERJ, o professor público só atende filho de pobre, mas o bombeiro atende até filho de rico. Há poucos meses, aliás, eles eram os “heróis” da mídia no resgate das vítimas das enchentes (outra tragédia anunciada deste desgoverno), entre as quais se incluíam os “favelados de luxo” das elites, cujos condomínios em áreas de risco, assim como os barracos populares, também foram varridos pelas enxurradas, sem nenhuma distinção de classe (embora, é claro, as maiores vítimas, como sempre, tenham sido os mais humildes). Sem querer fazer um trocadilho, posso vaticinar que, até 2014, muita água – e fogo – há de rolar por aqui... Te cuida, playboy!
Luiz Ricardo Leitão é escritor e professor adjunto da UERJ. Doutor em Estudos Literários pela Universidade de La Habana, é autor de Noel Rosa – Poeta da Vila, Cronista do Brasil e de Lima Barreto – o rebelde imprescindível.