Com o crescente sucesso de seus filmes estranhos e sinceros, Charlie Kaufman virou uma raridade em Hollywood -- um roteirista de qualidade.
O criador de filmes como ``Quero Ser John Malkovich'' e ''Adaptação'' também vem sendo taxado de ser recluso demais -- injustamente, segundo ele.
Na verdade, Kaufman estava simplesmente feliz demais em falar sobre seu novo filme, ``Brilho Eterno de uma Mente Sem Lembranças'', que já faturou mais de 26 milhões de dólares em seus primeiros 26 dias de lançamento nos Estados Unidos.
É bem raro que a platéia esteja tão consciente dos roteiristas, a menos que eles também dirijam filmes. Você tem interesse em dirigir?
KAUFMAN: Acho que não penso em ``Brilho Eterno'' como um filme de Charlie Kaufman. Eu o vejo como uma colaboração de várias pessoas. Há um filme que eu estou planejando dirigir, mas eu ainda não o escrevi. Vou fazer isso depois do projeto que estou escrevendo agora e que Spike Jonze vai dirigir.
Você ganhou sua reputação sendo misterioso. Você acha que Nicolas Cage, ao interpretar você em ``Adaptação'', ajudou a aumentar essa visão?
KAUFMAN: Já se referiram a mim como recluso mais de uma vez, o que eu não sou. Em cada filme, eu falo com a mídia. Eu não gosto de ser fotografado ou de falar sobre minha vida pessoal. Mas acho que o segredo já foi revelado. Durante ``Quero Ser John Malkovich'' as pessoas pensavam, 'quem é esse cara?' Sabia-se pouco a meu respeito, e não havia fotografias minhas. Agora há muitas fotografias simplesmente porque se você vai a um evento -- a uma estréia, ou almoço -- sua foto está lá e está online. É estranho.
Você enxerga ``Brilho Eterno'' como um tipo de resposta ao padrão de comédia romântica açucarada?
KAUFMAN: O que eu estava tentando fazer quando escrevi ''Brilho Eterno'' e ``Adaptação'' era não contribuir para a idéia do romance hollywoodiano. Queria mostrar uma verdadeira relação. Para quando eu fosse ao cinema e visse algo assim, pudesse pensar, ``oh, ok, posso entender isso. Tem a ver com a minha vida, não é um conto-de-fadas inatingível''.
Você conta essas histórias meio que de modo fraturado para lembrar as pessoas que elas estão assistindo a um longa-metragem, colocando-as e tirando-as do filme?
KAUFMAN: Algumas pessoas vão dizer -- e já vi isso escrito -- que eu sou um espertinho, ou obcecado pelos jogos mentais e esse tipo de coisa. Gosto de estruturas interessantes e gosto de ser capaz de descobrir uma maneira de contar uma história que seja específica àquela situação. E essa é uma questão abordada em ``Adaptação''. Mas não me acho um espertinho. Acho que tudo o que faço é muito sincero.
Você é hoje um dos poucos roteiristas que podem atrair talentos aos projetos, da mesma maneira que Woody Allen ou Spike Lee fazem como diretores. Você pensa no elenco quando escreve?
KAUFMAN: Quando estou escrevendo, não fico pensando nos atores. Não fico pensando em estrelas. Não gostaria de trazer uma estrela para o filme apenas porque ela poderia ser bilheteria garantida. Uma coisa sobre esses filmes é que eles têm baixo orçamento e as grandes estrelas aceitam trabalhar neles porque querem estar ali. Elas estão sendo pagas, mas não com o salário que elas costumam receber. Então elas estão lá porque querem estar lá e porque querem fazer aquele trabalho. Foi esse o caso com Jim Carrey e Kate Winslet e Meryl Streep e todo o resto.