Por um lado, repetidas afirmações de apoio ao presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva. Por outro, o já conhecido "fogo amigo" do Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST) em relação ao governo, expresso através do aumento das pressões sobre o ritmo de implantação do Projeto Nacional de Reforma Agrária (PNRA), de críticas contundentes à política econômica, de cobrança por maior intervenção contra as ações armadas do latifúndio e da oposição intransigente à liberação dos transgênicos ou à adesão de projetos de livre-comércio, como o da Alca.
Este relacionamento paradoxal com o governo brasileiro, tão comum entre os movimentos sociais do país, também é marcante no discurso que a Via Campesina, a maior organização de camponeses do mundo, tem manifestado no Fórum Mundial da Reforma Agrária, em Valência.
Já durante a abertura do evento, no domingo (5), Rafael Alegria, membro da coordenação da VC em Honduras, reafirmou que o Brasil tem, para o movimento social internacional de agricultores, um papel fundamental no processo de fortalecimento da concepção de uma reforma agrária não mercantil. Ou seja, se a reforma agrária tiver êxito no Brasil, processos similares na América Latina e no resto do mundo se fortalecem. Um fracasso brasileiro, por outro lado, poderia prejudicar a luta dos movimentos sociais em todo o mundo.
Foi a partir desta preocupação que a direção internacional da VC solicitou uma conversa com o ministro do Desenvolvimento Agrário (MDA), Miguel Rossetto, na tarde de domingo. Segundo Alegria, a VC considerou a eleição de Lula no Brasil uma grande vitória, principalmente em função da bandeira da reforma agrária hasteada na campanha, mas a lentidão da implementação do PNRA começa a preocupar "porque o tempo está se esgotando".
- Sentimos que as mudanças na América Latina começam a apresentar um quadro mais favorável, temos podido contar com governos como o venezuelano e agora o uruguaio, mas o Brasil ainda é o mais importante aliado por ser o país mais forte da região - afirmou Alegria.
Já o basco Paul Nicholson cobrou uma posição mais clara do Brasil quanto ao banimento dos transgênicos, uma das principal bandeiras do movimento europeu. Também afirmou que a postura do Brasil junto à Organização Mundial do Comércio (OMC), ao cobrar mais abertura dos mercados para os produtos agrícolas brasileiros, criou um mal estar entre os movimentos sociais, que consideram o agronegócio exportador, qualquer que seja a cultura e independente de sua nacionalidade, um instrumento de aniquilação da agricultura familiar mundial.
Por fim, o atual secretário-geral da VC, o indonésio Henry Saragih, pediu a Rossetto medidas mais concretas contra a criminalização e o assassinato de lideranças rurais. "Muitos líderes de meu país foram ao Fórum Social Mundial no Brasil por interesse na sua reforma agrária. Mas agora ouvimos que existe muita violência contra os agricultores, e quero saber como o seu governo pode protegê-los", perguntou Saragih a Rossetto, apresentando também a demanda de que o Brasil endosse uma declaração internacional de direitos camponeses das Nações Unidas.
Brasil em disputa
Acompanhado do presidente do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra), Rolf Hackbart, e do coordenador do Núcleo de Estudos Agrários e Desenvolvimento Rural do MDA, Caio Galvão, Rossetto afirmou que todos os pontos levantados estão sendo tratados pelo governo, mas que a sua própria estrutura comporta internamente uma clara disputa de concepções e poder.
- Quando falamos de poder institucional no Brasil, estamos falando de uma responsabilidade compartilhada entre executivo, legislativo, judiciário e governos estaduais. Temos um Congresso composto por uma maioria conservadora, onde ocorrem, muitas vezes, tentativas de desconstituição dos marcos legais - afirmou Rossetto, apresentando como exemplos a CPI da Terra (que analisa a