O roqueiro irlandês Bono desafiou na quinta-feira os líderes da União Européia a esquecerem a política nacional e a colocarem a mão no bolso para incentivar o desenvolvimento da África, impedindo assim que milhares de pessoas morram por dia em uma "pobreza estúpida".
- Deixem de lado as bandeiras nacionais, olhem para os números e olhem para o futuro - disse o líder da banda U2, que faz campanha pelo perdão da dívida africana, em entrevista coletiva na sede da União Européia, em Bruxelas.
Ele falou ao lado do presidente da Comissão Européia (o Poder Executivo do bloco), José Manuel Durão Barroso. A sala de imprensa, que raramente fica tão lotada, excepcionalmente aplaudiu Bono.
Os ministros europeus aceitaram recentemente ampliar a verba de ajuda ao desenvolvimento para cumprir o plano da ONU contra a pobreza no mundo. A UE espera que isso constranja outros países ricos, como Japão e Estados Unidos, a também aumentarem suas doações.
O objetivo do plano é reduzir pela metade a miséria no mundo até 2015. O pacote europeu deve ser formalmente aprovado na cúpula da semana que vem.
- As pessoas estão morrendo pelas razões mais estúpidas. Essas são catástrofes evitáveis. Não se trata de algum absurdo de irlandês: essas são metas atingíveis - disse Bono.
A meta da UE é gastar 0,7% do seu PIB na ajuda ao desenvolvimento dentro de dez anos. Isso representaria uma ajuda extra de US$ 20 bilhões por ano a partir de 2010, a um custo de 49 euros a mais para cada contribuinte dos 15 membros mais antigos do bloco.
Mas Bono, usando terno e gravata e seus tradicionais óculos escuros, não escondeu seu ceticismo com a promessa. Segundo ele, há um longo caminho entre os políticos assinarem cheques e descontá-los. Mas o fato é que alguns países vão melhor que outros.
A Escandinávia, especialmente a Dinamarca, é um exemplo a ser seguido quando se trata de ajuda internacional, enquanto sua Irlanda natal, um país novo-rico, está ficando para trás, na opinião do cantor.
Ele também cobrou da Alemanha, a maior economia da Europa, que cumpra suas promessas de ajuda. - O chanceler (Gerhard) Schroeder me disse pessoalmente que quer que a Alemanha comprometa 0,7% até 2015. Acredito nele quando me diz isso - afirmou.
- Mas o homem que cuida da carteira, (o ministro das Finanças Hans) Eichel, precisa olhar para os números e ver que este é um momento na história para a Alemanha se abrir ao mundo. Eles têm de quebrar algumas regras em casa a respeito do processo orçamentário, a fim de que sejam parte da história.
Mesmo que os líderes da UE aprovem o plano, ainda precisarão descobrir como financiar as ambiciosas metas. Mas um acordo fortaleceria a posição de Barroso para quando ele for falar em nome da UE na cúpula do G8 na Escócia, em julho.
A Grã-Bretanha, que preside atualmente o grupo dos países mais ricos do mundo, declarou 2005 como o ano da ajuda à África e tenta obter apoio dos demais membros do G8 para isso.
Barroso citou uma música de Bono para explicar por que a UE deve aumentar a ajuda internacional, apesar da crise política provocada pela rejeição da Constituição européia na França e na Holanda.
- <i>Don't worry baby. It's gonna be alright. Uncertainty can be a guiding light</i> - disse o português. (não se preocupe, querida, tudo vai dar certo. A incerteza pode ser uma luz-guia) seria uma tradução dos versos.
Roqueiro Bono pede à UE que ponha a mão no bolso pela África
Quinta, 09 de Junho de 2005 às 11:08, por: CdB