Osol do dia 16 de julho lançou seus últimos raios sobre a grande fogueiraerguida no pátio da matriz da pequena cidade de Ribeirão Cascalheira - MT,entregando para a lua cheia, esplêndida no céu, o brilho a ser derramado sobrea 5ª Romaria dos Mártires da Caminhada Latino Americana, que reuniu cerca desete a dez mil pessoas, sem contar os que olhavam das calçadas, admirados eatentos e muitos que, mesmo distantes, se uniram em espírito.
Todosvestidos com vestes de festa, vindos dos quatro cantos do Brasil e de váriosoutros países, estamos postos num grande círculo, movidos pela energia vibrantedos abraços, beijos e sorrisos, trocados na emoção de reencontrarmos velhasamizades e sentirmos o calor de novos aconchegos.
Entrenós e em nós, se manifesta a presença deles e delas, os mártires, testemunhasfiéis do Reino da Vida, cujo sangue foi derramado no colo da mãe terra, pormãos assassinas, quase sempre a mando de quem, na cegueira da ambição desenfreada,pela posse do dinheiro, dos bens de toda a terra e do poder, pagam pistoleiros violentos,para executarem quem atravessa seu caminho, denunciando seus intentos criminosose anunciando com a verdade da própria vida, a solidariedade irrestrita com osinjustiçados e oprimidos.
Nascamisetas e faixas, nos estandartes e cantos, nos corpos de seus parentes queestão conosco e nas palavras testemunhais dos pastores, especialmente do Poetae Profeta, Pedro Casaldáliga, bispo emérito da Prelazia de São Félix doAraguaia, com seus mais de 80 anos, 40 dos quais vividos nessa região, uma dasmais violentas do Brasil. Marcado, há vários anos pelo Parkinson, Pedro, fezecoar ainda com vigor que a fé lhe confere, sua mensagem de teimosa eresistente esperança pascal.
Aosom dos tambores e mantras de diversas tradições místicas, entra no grandeespaço, o cortejo de mulheres, portando vasilhas pintadas com motivos indígenas,levando águas e flores. Circulam e dançam em volta da fogueira. Em seguidachegam crianças, meninos e meninas do povo dali, trazendo belos estandartes,com fotos e nomes dos (as) mártires, para o centro da grande roda. A equipe decoordenação vai orientando. A saudação de acolhida, com um toque orante, veiodo atual bispo da Prelazia, Dom Leonardo. Finalmente, entra a Cruz do P.e João,conduzida por jovens mulheres. Do Círio Pascal, sai o fogo, posto na fogueira enas velas das pequenas lanternas, recebidas por cada pessoa presente. A praça, rapidamente,se transforma numa constelação de luz. Um casal de Araras passa sobre nós, numbelo e sereno vôo, costurando uma linha livre e sutil, ligando a lua, afogueira e o ultimo vestígio do sol, exatamente na direção por onde seguimos emCaminhada, entoando os cânticos conhecidos: "Sou, sou teu, Senhor, sou povo novo, retirante, lutador!”, "Vidas pelavida, vidas pelo Reino”, "Ribeirão Bonito, cruz do P.e João!”...
Forammais de três quilômetros até o pequeno Santuário dos Mártires, construído na margemesquerda da rodovia de quem sai de Cascalheira, logo após o pequeno rio,chamado Ribeirão Bonito. No trajetoalguns testemunhos, gritos de denuncia, das vitimas indígenas, jovens, mulheres,trabalhadores (as), cujos direitos sagrados estão sendo desrespeitados pelos atuaissenhores do latifúndio, do agro-negócio, da droga, do sistema bancário.Passamos bem ao lado, da capelinha, onde o Padre João Bosco Penido Burnier, MissionárioJesuíta, viveu a sua última agonia, depois de ser alvejado à queima roupa, porum policial, no dia 12 de outubro de 1976. P.e João, acompanhava D. Pedro eforam pedir em favor de duas mulheres que estavam presas e eram torturadasinjustamente. Ali, foi celebrada uma emocionante Vigília no dia anterior.
Aochegarmos ao Santuário, mais alguns testemunhos. Um momento para a leituraBíblica, a prece do Pai Nosso, a benção e partilha de um tipo de bolinhopopular na região. Para encerrar a noitada festiva, nós, artistas presentes animamoso povo, com cantos e poesias. Pelas onze horas da noite, retornamos para ascasas e escolas, onde fomos acolhidos, com carinho pelas famílias da cidade.
NA EUCARISTIA, OBRILHO DA GLÓRIA PASCAL!
Amanhã do domingo, 17 de julho, estava luminosa pelo sol e a beleza de cores, noespaço, atrás do Santuário dos Mártires, preparado para a Missa de despedida daRomaria, concelebrada pelos bispos D. Leonardo, D. Eugênio, bispo da cidade deGoiás e pelo próprio D. Pedro e mais de 30 padres.
Todacelebração teve como foco principal a vitória pascal de Jesus e de todas astestemunhas da Ressurreição, desde os discípulos de Emaús (Lc 24,13), lembrandoa multidão dos que lavaram suas vestes existenciais no sangue do Cordeiro (AP7,9) e de quem, neste tempo presente, mantém a fidelidade a causa maior davida!
Apósa comunhão, ainda alguns testemunhos e denuncias, pela boca dos representantesindígenas; Cacique Marcos e sua mãe, do povo Xucuru, de Pernambuco, que fez umabela prece aos Encantados, pela proteção da terra e dos seres vivos. Os Xavante,na sua dura luta pela retomada de sua terra tradicional Marãiwatsédé, no MatoGrosso, de onde foram deportados na década de 1960 e que retornaram em 2004decididos a não abrir mão da terra sagrada, onde está sua memória e foramplantados os corpos de seus ancestrais.
Antesda benção e envio final, a mensagem emocionada de Pedro, temperada de carinho,profecia e convocação para a fidelidade no testemunho pascal: "multipliquem as romarias dos mártires dacaminhada!... Esta, possivelmente será minha ultima Romaria com os pés nestaterra...!”
Comesta imagem inesquecível e ao som do hino: "RibeirãoBonito, Cruz do Padre João, AltaCascalheira, gente do sertão, o suor e o sangue, fecundando o chão!”,romeiros e romeiras da Caminhada, nos despedimos, para as longas viagens de volta,com os corações unidos e aquecidos na fogueira da esperança para a missãourgente, assumida, sem reserva, até o fim, por tantas testemunhas do reinadopleno e eterno da Vida para todas as vidas: João, Chicão, Marçal, Zumbi,Conselheiro, Margarida, Zé Claudio, Maria, Dorothy, Nativo...
Fortaleza,19 de julho de 2011
Em memória daexperiência da Revolução Sandinista de Nicarágua, cujos 32 anos se comemoraneste dia.
Zé Vicente - poeta-cantor
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