Em passagem pelo Brasil para promover uma retrospectiva de seus filmes, Roman Polanski conversou na tarde da última segunda-feira com a imprensa em São Paulo. Ganhador do Oscar de Melhor Direção em 2002 por 'O Pianista', o cineasta franco-polonês rechaçou as perguntas que procuravam teorizar sobre sua personalidade e trabalho.
- Me sinto incapaz de responder essa pergunta, não tenho esse tipo de cartesianismo no meu caráter - retrucou à certa altura, por meio de sua intérprete.
O assunto em questão era se Polanski se considera um artista de várias inquietações ou de apenas uma.
- Faço cinema da mesma forma que faço um esporte, que como, que faço amor. Amo esse trabalho. Essas perguntas são para teóricos, críticos, não para pessoas como eu, que criam - disse.
Convidado novamente a analisar, agora a sua obra, Polanski voltou a cortar o assunto.
- Sou diretor, não filósofo - falou.
Depois do êxito de 'O Pianista' - Palma de Ouro em Cannes 2002 e Melhor Ator (Adrien Brody), Diretor e Roteiro Adaptado no Oscar 2003 - Polanski contou que não sabia o que fazer.
- O que vou fazer agora? Uma comédia, um policial, um filme banal? - revelou.
O diretor diz que sentiu vontade de fazer algo para crianças.
- Fiquei observando meus filhos e pensei no que gostava de ler quando tinha a idade deles. Lembrei de 'Oliver Twist' - disse.
O filme, previsto para estrear em 2005, é baseado no clássico de Charles Dickens e está sendo adaptado por Ronald Harwood, que também trabalhou em 'O Pianista'.
O diretor de 'Bebê de Rosemary' e 'Chinatown' mostrou que tem bom humor, mas que este não é gratuito. Disse que adora visitar o Brasil, não titubeou em vestir a camisa da Seleção que recebeu de presente - e aproveitou para zombar das derrotas brasileiras para a França em 1986 e 1998 - e contou piadas. Mas, questionado sobre o estilo semelhante ao do colega Alfred Hitchcock (1899-1980), foi seco.
- Não vou responder. Isso não é brincadeira de jogo da verdade - respondeu.
Mas o assunto que mais poderia irritar ou constranger Polanski foi tratado de forma absolutamente natural pelo diretor. Em 1977, quando morava nos EUA, ele foi acusado de estuprar uma menina de 13 anos e, desde então, é fugitivo da polícia norte-americana. Em 2002, Polanski não pôde ir à entrega da estatueta por 'O Pianista'.
Na segunda-feira, a produção da retrospectiva, que trouxe o diretor ao Brasil, quis proibir que se falasse sobre o assunto, mas ele fez questão de se pronunciar.
- Sou bem crescido e posso lidar com isso sozinho. Há muitos diretores americanos que apreciam meu trabalho e me aplaudem de pé. Isso não tem nada a ver com meus problemas na Califórnia - falou.
Polanski é judeu, filho de pais poloneses e teve a mãe morta em campos de concentração durante a Segunda Guerra. Mas o diretor garante que ainda não assistiu ao polêmico 'Paixão de Cristo', de Mel Gibson.
- Não assisti, portanto, não tenho opinião. Nunca me interessei muito pelo judaísmo - completou.
Depois de perder a mãe, Polanski foi entregue pelo pai a uma família católica para fugir dos nazistas.
Por isso mesmo, o diretor considera 'O Pianista' seu trabalho mais pessoal. O filme conta a história de um músico judeu polonês que tentar sobreviver nos guetos durante a guerra.
- As coisas que se aproximam muito de mim me incomodam, por isso demorei tanto para fazer 'O Pianista' - revelou.
Da produção brasileira, Polanski citou 'Cidade de Deus', de Fernando Meirelles, que ele considerou 'extremamente impressionante'.
- Com certeza o diretor fará ótimos filmes - apostou.
Roma Polanski promove retrospectiva de filmes no Brasil
Segunda, 22 de Março de 2004 às 23:30, por: CdB